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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Até o caroço

Gosto.
Gosto do gosto.
Mesmo com desgastes,
mesmo depois dos desgostos.
Não desgosto, gosto.
Gosto do gostar.
Gastar meu gosto por desgastados desgostos.
Esgotos.
Esgotar cada gota de possibilidade.
Gosto com gosto.
Gosto até gastar.
Gosto do seu gozo.
Gozo com seu gozo.
E gozo, mesmo sem seu gozo.
Porque gosto.
E gosto de gostar.
E gosto até acabar.
Gosto até que vá para o esgoto.
E se esgote o gosto.
Desgastado.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

JR.



JR / LOS SURCOS DE LA CIUDAD / SPAIN

Vi esse vídeo ano passado no MASP. 

Chovia.  Vi o vídeo sozinho na sala de projeção e a chuva era tão forte que dava pra ouvi-la. Tive que vê-lo duas vezes. Ele passava junto com outros dois, também do JR, mas achei esse o melhor. Mas tenho dúvidas agora.

Das coisas que eu não escrevi.


E hoje, depois de um bom tempo  longe, me deu vontade de escrever. To meio com vontade de falar sobre tudo, mas acho que não é aqui o lugar pra isso.

Dai, resolvi fazer uma lista, simples, sem me estender muito, das coisas que passam na minha cabeça. De repente, listando assim, eu me organizo (e me animo) e alguma coisa flui. Vai que assim funciona.

Queria escrever sobre o porquê de eu ter parado de escrever. Não que eu saiba, mas se eu escrevesse, talvez eu começasse a entender.

Queria escrever sobre auto-suficiência. Mas, assim, escrevendo a palavra e me deparando com a dúvida de não saber escrevê-la sobre as novas regras ortográficas, acho que não seria um bom tema. Afora essa dúvida semântica, quando eu falo em auto-suficiência, penso no quanto nos bastamos em nós mesmos. Tenho pensado muito nisso e os resultados desses pensamentos têm me deixado muito feliz. Seria um texto com o título “eu me amo”. Acho que esse, invariavelmente, saí.

Queria escrever um texto sobre trabalho, crises profissionais, procura de emprego. Sabe aquela coisa de parar um dia e se perguntar “o que é que eu estou fazendo?” e refletir sobre o quanto de fato realmente escolhemos nosso destino  ou o quanto somos levados por ele? Então. Profundo isso, né? Sei se tenho competência técnica pra falar disso, mas tenho grandes dúvidas e acho que daria pro gasto.

Eu faria um conto novo. Ou dois ou três. As idéias estão aqui, guardadas, fermentando, amadurecendo.  Se não virarem história, apodrecem. Enfim, essas eu tenho obrigação de colocar pra fora. Talvez a crise profissional e a questão de auto-suficiência viessem numa história. Com morte e sexo, evidentemente.

Eu falaria em outro texto da minha felicidade. Ou talvez não, pois, ela é minha e, das coisas que eu aprendi recentemente, tem coisas que não precisam de divulgação. Menos é mais. E esse parágrafo aqui foi só pra dizer que eu estou feliz e pronto. Basta.

Queria escrever um texto falando da minha viagem pra Bonito-MS. Não posso fugir do obvio e deixar de falar que a cidade é bonita. Alias, a cidade, pois fui a três municípios. Houve algo de mágico nessa viagem, nos lugares incríveis que eu conheci, nas sensações que eu tive, da velocidade do tempo. Ah, o tempo, sempre ele. Bonito é uma viagem que eu não vou esquecer, certamente. Essa talvez seja o próximo post...

E misturando a viagem de bonito com a questão (recorrente) de auto-suficiência, poderia sair um texto sobre a relação individuo e coletividade. Tive essa conversa ao longo de um trilha em bonito. Não lembro como ela começou e lembro que ela terminou pois foi interrompida pela visão de uma delicia de cachoeira. Mas dava pano pra texto. Se dava...

E falando em viagem, eu deveria escrever sobre a próxima, daqui a uma semana. Longe de mim fazer um texto descrevendo preparativos de viagem, pois há 200 mil blogs e sites muito mais competentes que eu, evidentemente. Mas, como esse blog aqui é meu, falar da minha ansiedade me agradaria. Mas talvez eu não conseguisse. Imaginei-me agora escrevendo sobre isso e meu estomago embrulhou... Então, passo...

Há muito o que falar, mas, então, não foi dessa vez. Mas, em breve, eu volto.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Abandono


Não, esse blog não está abandonado. 
Mesmo que assim pareça. Mesmo com toda a poeira. Mesmo com teias e mais teias. Mesmo não valendo dez centavos. Mesmo que com as mesmas velhas idéias. Mesmo com muita besteira. Mesmo.

Esse blog não está abandonado.

Ele está de castigo.

É diferente.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Ele tinha a mania de se apaixonar

Ele tinha a mania de se apaixonar sinceramente. E rapidamente. Também
tinha a mania de se desapaixonar francamente. Também rapidamente. Era
intenso.

Ele achava que lhe faltava tempo, mas na verdade lhe faltava
paciência.  Não tinha saco para ver um amor nascer, crescer e ser
forte. Isso requer calma e paciência. Ele não tinha nenhum nem outro.

Ele tinha mania de construir amores, usando a lógica e conveniência ou
os materiais que dispunha. Seus amores nasciam da noite pro dia.
Morriam da mesma forma.

Ele queria um amor pronto. De microondas. Hot pocket love. Mas com
sabor de verdade. Sim, ele queria muito. Era exigente. Ao menos com
isso. Ele era intenso. Amava intensamente a primeiro sorriso. Amava
uma flor, se uma flor visse. Amava um bêbado, se a bebida fosse boa e
se por um instante, houvesse ali poesia. Mas em dois instantes,
esquecia. Do intenso amor que sentia e cultivava, guardava apenas um
vago sorriso. Um sorriso que sempre carregava no bolso. Um sorriso
sincero e efêmero. Sem calma e sem paciência. Só sabia amar assim. Por
instantes. Efemeramente.

Ia assim, desgovernado, colecionando amores de ocasião, aqueles de
promoção, sem rumo nem direção. Ele ia. Ele tinha mania de se
apaixonar. Não admitia a idéia de uma vida sem paixão. E não
considerava a hipótese de ter uma paixãozinha, de uma coisinha à toa.
Ele tinha mania de revoluções. De que o amor seria uma revolução. Algo
incrível. E sempre era. Efemeramente incrível. Incrivelmente efêmero.

Um dia ele parou. Estava cansado. E foi a primeira vez que ele parou.
Sem saber onde estava, tampouco aonde estava indo, quis saber de onde
veio e olhou pra trás. E no caminho, nada reconheceu senão o cansaço.
Carregava com ele pedaços de histórias e memórias que não eram dele. E
esse era um saco pesado como um saco de tijolos. Estava cansado e já
não entendia porque carregava aquele saco. Deixou os tijolos pra trás
e se deitou no chão a olhar o céu. Adormeceu.

Sonhou com sorrisos sem rosto.

Acordou ainda cansado e ligeiramente feliz, contagiado pelos sorrisos
que viu. Pensou em continuar andando, sem saber aonde ir, mas ali lhe
parecia tão bom que ali mesmo ficou. Sabe que lhe faz falta alguns
pedaços que perdeu entre os amores que deixou. Sabe que caminhar na
pressa de amar cansa. Sabe que algo mudou naquele parar e adormecer.
De tanto andar sem rumo, aprendeu calma. Ainda lhe falta paciência.
Pensou em plantar uma árvore e esperar ela crescer para lhe dar
sombra. Pensou que poderia chover. Pensou que até então não amara
ninguém, que não sabia o que era amor e que nada naquele caminho havia
existido. Havia apenas sorrisos sem rostos... Pensou que poderia ficar
triste. Não amar ninguém é muito triste. Mas, passados dois segundos
de susto, pecebeu-se mudando e sorriu. Sorriu de um sorriso tão
sincero que nem sabia que era seu. Pensou que coisas novas poderiam
acontecer. Como talvez aprender a ser paciente e amar alguém. tudo era
possível.

Estava feliz. Sentia-se livre. Andou até uma sombra e decidiu esperar.
Havia perdido muito tempo na vida, mas não havia pressa. E, por não
haver pressa, mais feliz ficou.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Tudo que não era táctil.

...

Éramos nós, um sonho.
Alimentávamos-nos de ilusões,
De tudo que não era táctil.

De manhã, comíamos nossas esperanças e nossa imaginação.
Almoçávamos, entre nuvens, efêmeras possibilidades e devaneios trazidos pelo vento.
Devorávamos, distraídos, fantasias de infância, cigarros baratos e café amargo ao final da tarde.
E ao deitar, nos empanturrávamos de suor e gozo, em uma fome sem fim.

Éramos nós, sim, assim.

... 

 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sabe um dia estranho, tipo hoje?


Nada de novo no front, exceto uma estranheza que me acompanha desde essa manhã. Sabe quando você desconfia que as coisas não estejam no mesmo lugar de antes e de repente percebe que é você que não está no mesmo lugar? Parece que tá rolando um filtro, tipo instagram, nas cenas ao meu redor. Num instante tem supersaturação de tons que, de repente, pisco o olho, vira uma cena em sépia. Parece a sensação de quem acabou de trocar de óculos, mudou o grau, e passa a enxergar detalhes que antes já não via e deixa de enxergar coisas que lhe pareciam óbvias. Então, acordei meio assim. Com grau novo. 

E vendo as coisas assim, estranhas, com um astigmatismo emocional, sem saber os limites das coisas e mesmo sem saber ao certo suas cores, tudo, absolutamente tudo, me parece estranho. Estranho nunca soou tão bem e tão clara para uma situação. Poderia ser TPM. Tem mulheres que acham o mundo estranho durante a TPM. Mas acho que não me cabe TPM, se bem que nesse nessa sensação esquisita toda eu não me espantaria. Enfim, até o que escrevo parece estranho pra mim. Não que não seja, sempre, pra você que lê, mas, pra mim é estranho me achar estranho.

Na prática é mais ou menos uma hipersensibilidade pra algumas coisas e uma indiferença para outras, mas meio assim misturado, sem muita definição ou fronteiras. E eu, que faço sempre um esforço gigante pra ter foco nas coisas, começo a divagar. Chega uma hora que é melhor parar de brigar e se entregar ao inevitável. Hoje não tá rolando foco. Nem senso prático.  

Está muito mais divertido devanear na visão singular em que vejo o mundo hoje.  Ver o mundo de um jeito diferente pode ser algo perigoso. Pode ser que algumas verdades morram ou desapareçam, pode ser que surjam outras, não sei. Sei que está tudo muito estranho e sem sentido no mundo e é perigoso quando vemos as coisas assim. Vamos esperar passar e vejamos onde é que eu vou parar... 

E olha que eu nem bebi.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Gritos e Silêncios

Olhava fixamente para o espelho. Era um espelho de corpo inteiro. Era um espelho liso e grande em uma pequena sala quase vazia e que estava ali para dar a impressão de um espaço maior. Olhava intrigado para seus movimentos invertidos. Olhava fixamente para o espelho. Olhava-se, olhos nos olhos, e seus olhos, verdes escuro, estavam vermelhos. Queria não mais beber. E queria nunca mais chorar. 

Fazia três meses que bebia e chorava, diariamente. Fazia três meses que não saia de casa, exceto para beber e para chorar. Comer, eventualmente. Fazia três meses que matara sua esposa. Fora um acidente. Sim, houve um briga, sim, eles discutiram, mas ele só queria que ela parasse de gritar. Gritar com ele. Que ao menos Lavínia gritasse com as paredes, com as plantas, com outros, com o espelho. Mas não com ele. Ele não agüentava mais seus gritos. Lavínia gritava com ele fazia um tempo e ele sempre pedia para ela parar. Dizia que ela podia dizer o que quisesse, que podia lhe xingar, lhe maldizer, lhe amaldiçoar, mas, gritar, por favor, ele não agüentava. E, naquele dia, três meses atrás, os gritos dela lhe pareceram insuportáveis. Ele só queria que ela se calasse.

Ele olhava seu corpo pelo espelho. Ele costumava ser grande, corpulento, alto, largo, mas o que ele via era a imagem de um flagelo, um homem pequeno, sujo, sórdido, de uma feiúra obscena. Tinha as mãos grandes, largas, cheia de veias e pequenas cicatrizes, marcas. Tinha dedos grossos. Três dias depois que a matara, as marcas destes dedos eram como duas luvas pretas no pescoço de Lavínia. Pensou apertar seu pescoço com a mesma força do que quando faziam sexo e ele a deixava sem ar, fazendo-a gozar logo assim que a soltava. Era comum aos dois a tal da asfixia erótica. Era raro fazê-la perder a consciência enquanto transavam, mas naquele dia talvez, ele não lembra, talvez ele tenha apertado um pouco mais. Ele não lembra. 

Ele que assim que pegou no pescoço de Lavínia, ela parou de gritar. Fez um silêncio que há muito não ouvia. Um silêncio que lhe acompanha até hoje. Um som de paz. Ele lembra que seus olhos verdes ficaram abertos durante todo aquele momento. Não piscaram nenhuma vez. Eram lindos seus olhos verdes. Duas piscinas. Olhos verde mar, mais claros que os seus. Era difícil não ser hipnotizado por aqueles olhos. E naquele silêncio, era lindo vê-los. Ele apertou o pescoço de Lavínia achando-a a mais linda das mulheres. Como a amava. Naquele silencio e paz, diante de tanta beleza, ele teve a certeza de que a amava e de que nunca havia amado tanto uma pessoa. Era ali, prestes a se tornar só seu corpo, a mais belas das mulheres. Ela era um anjo. E ele queria amá-la, assim, angelicamente, para sempre. Naquele silêncio e paz, diante de um anjo, ele estava feliz.

Só percebeu que a matara quando aqueles olhos lindos e verdes perderam o brilho, ganharam uma tonalidade cinza. Soltou seu pescoço com dores na mão, de tanto tempo, não sabe o quanto, contemplando os olhos da esposa e apreciando o silêncio. Ele não a queria morta, mas seu primeiro pensamento era de que nunca a vira tão bonita. 

Lavínia era uma mulher vil, oportunista, maquiavélica e linda. Era mais linda que todas as mulheres e era também a mais sedutora delas. Quando ele já não a servia, passou a destratá-lo e, pior, a gritar com ele. Gritava quando brigava, gritava quando falava, gritava quando sorria, gritava até quando dormia. A todo momento, ela gritava com ele. Se havia algo que dava prazer em Lavínia nos sues últimos tempos, era gritar com ele. Ela gritava e em seguida ria. Caia na gargalhada ao vê-lo desesperado e incomodado com seus gritos. Por muito ele aturou os destratos, não se importava com os xingamentos, mas os gritos ele nunca suportou. Ele sempre pedia a ela para parar e ela nunca parava. Até que parou para sempre. Mas mesmo vil, Lavínia não merecia uma morte assim.

Seu corpo foi jogado ao mar quase uma semana depois de sua morte. O álibi que ele dera à polícia era fraco, mas a policia não suspeitou dele. A família dela não acredita no desaparecimento e vê o isolamento do marido como uma profunda depressão pela perda da mulher. Eles sabem que ele a amava muito e que nunca a mataria. 

Mas ele a matou e chora todo dia pela sua morte. E agora olha para o espelho, vendo a figura decrépita que se tornou. A imagem refletida no espelho já não era a sua. E a imagem do espelho já não era mesmo. A imagem do espelho ria. De inicio, ria de canto de boca, um pequeno sorriso, que se transformou lentamente em um riso acido, seguido por um riso histérico. Histérico e satisfeito. A imagem a sua frente já não era sua. Seu reflexo era forte como sempre fora. E ria com uma satisfação primitiva e gutural, um riso alto. Ria com os olhos vermelhos, vivos, com uma gargalhada frenética a mostrar todos os dentes. E os dentes eram grandes, a boca era grande, era, a imagem histérica de si, grande e assustador.
Ele, que olhava a tudo com espanto, teve medo da sua imagem. Aquele homem que ria e o assustava era o mesmo que não agüentou ser maltratado pela a esposa. Era ele, a imagem e não ele, quem via, o assassino. Ele disse, assustado e quase sem voz: “Assassino...”

E a imagem, sem parar de rir, lhe respondeu: “Eu te libertei daquela vagabunda! Você é livre! E agora eu quero viver!!”

E ele então deu um soco no espelho, quebrando-o em pedaços que caíram ao chão. Pedaços que ainda refletiam sua imagem e essa imagem, estilhaçada, gargalhava ainda mais, como se o som dos mil pedaços se amplificasse por mil vezes. E a imagem do espelho quebrado, entre gargalhadas e risos, começou a falar “O assassino é você, o assassino é você”.

E começou falando baixinho, bem baixinho e foi aumentando a voz, pouco a pouco. Ele, o homem, pisoteava os cacos de vidro no espelho, mas, quanto mais pedaços ele criava, mais altas eram as gargalhadas e as palavras que ele falava. E as palavras, altas, agora eram gritos, gritos, gritos...

E ele, quase já em prantos, suplicou “Não grite comigo, por favor, não grite comigo”, no que os gritos ganharam mais força... “O assassino é você!!! O assassino é você!!!”. 

Com um pedaço pontiagudo de vidro em cada mão, ele lentamente e com toda sua força golpeou os próprios ouvidos, alternando os lados, uma, duas, três, quatro vezes e mais, até cair no chão. Fez-se novamente o silencio e a paz. E era a maior paz do mundo. E naquele silencio ele sorriu e achou bonito o vermelho de sue sangue refletido em mil pedaços. Em um certo momento, sentiu-se cansado e fechou os olhos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Série Diálogos - "A gente se acostuma..."


Ela: Assisti ontem o Abujamra recitando Marina Colasanti.  A gente se acostuma... eu não quero me acostumar.

Eu:  Tem coisas que a gente pode se acostumar, tem coisas que não... Não trabalho com regras.

Ela: Isso é bom. Ou melhor, seria bom, se fosse verdade. Regras são para serem quebradas! Mas não acredito em você. Acho que você é uma fraude. Você trabalha com regras, regras diferentes, suas regras, mas eu gosto disso. E gosto das falsas verdades que você fala. Você é cheio das falsas verdades. Elas não são mentiras, mas são falsas verdades. E eu não quero me acostumar, já disse.

Eu: Hum... Pode ser. Normalmente eu ia ficar puto ouvindo isso, mas vindo de você, agora, não tenho como dizer que você não esteja certa.

Ela: Eu sei. Eu sempre estou. Você sabe...

Eu: Falando em verdade, a verdade é que eu acho um elogio quando você percebe que as falsas verdades que eu digo não são mentira. Só os inteligentes, e são poucos, percebem isso. Eu sou uma fraude e me orgulho disso. Sempre achei maneiro cagar regra sobre coisas que eu realmente não me importo. 

Ela: Vcoê fala pra caralho e não diz nada... 

Eu: Mas é... O mundo inteiro é uma mentira e eu me considero uma mentira sincera.  Ou será que eu estou mentindo pra mim? A verdade é que eu só não gosto do generalismo. Ainda mais quando sou eu que faço, mas o mundo inteiro é uma mentira. Mas, se é pra mentir, e todo mundo mente, aprendi isso vendo House, que seja sobre coisas diferentes.Um mentira inédita demora mais a ser descoberta. 

Ela: Ou não... Fodam-se as suas mentiras. Você fala demais. É prolixo demais. Tem gente que te acha chato demais... As vezes eu acho... Mas as vezes é bom entrar nessas viagens suas, principalmente para as pessoinhas de cabeça vazia... Mas esse seu blablabla não levam ninguém a lugar nenhum. Você sabe disso, né?

Eu: Não leva? Depende de aonde você quer ir. Tem uma ou outra que eu levo. Mas, não tenho a intenção de levar ninguém a nenhum lugar...

Ela: To com uma vontade imensa de viajar... adoro aquela sensação de sair, de conhecer o novo, de não saber o que pode acontecer, mas que venha o que tiver que vir. Vontade de praia do nordeste, moqueca de peixe, rede na sombra do coqueiro e água de coco gelada.

Eu: Viaje. Viajar é bom. Mas isso assim parece uma fuga. Você está fugindo?

Ela: Não sei. Você está?

Eu: Talvez. Fugir é diferente de buscar, né? Mas as vezes pode ser meio parecido. Achava que eu estava fugindo de algumas coisas, mas de vez em quando me percebo buscando outras. E tem vezes que eu me vejo buscando algumas coisas quando na verdade estou fugindo de outras. Tenho dificuldade de saber onde estou. E acho um saco ficar me analisando de instante em instante... Pra isso eu pago a análise...

Ela: Eu queria viajar. Preciso de novos ares. Buscar algo ou fugir disso aqui. Estou cansada...

Eu: Viajar é também uma expressão de solidão. Nada mais solitário que um viajante...

Ela: É verdade, mas também depende da viajem. Viajar acompanhado é bom demais! Eu gosto.

Eu: Mesmo viajar \acompanhado. Há, quando a gente muda de cenário de fundo, muda de lugar, fica longe de casa, uma solidão que nos acompanha...

Ela: Ah, mas essa solidão nos acompanha do nascimento à morte, viajando ou não.

Eu: Sim, mas uma certa dose de rotina nos distrai dessa solidão. A mesma rotina que, em outras questões, nos sufoca. É preciso, sempre e para tudo, buscar o equilibrio. Mas, definir e saber onde está esse equilibrio é que são elas. O equilibrio é uma utopia.

Ela: Você e suas falsas verdades... Chato. Só Buda achou o equilibrio

Eu: Cada um tem o seu. Ou ninguém o tem... Buda sempre me lmebra bunda. O equilibrio da bunda é o cu? Pronto, acabou a seriedade. Deixa eu ver sua bunda? Gosto dela. Ela gosta de mim.

Ela: Gosto de você gostar da minha bunda. E gosto de pensar que não é só dela, mesmo não tendo muita certeza disso. Mas, das minhas preocupações agora, essa é a menor. E, sei lá como, eu até gosto de você. Gosto até da sua seriedade equilibrada com essas besteiras, se não tudo fica muito pesado e chato. Alias, você é chato e é pesado e eu até gosto de você. Isso é impressionante. Acho que sou eu que preciso de terapia.

Eu: Acho que você precisa de sexo. Mais um pouquinho.

Ela: Sempre preciso. Tem vida em você ainda? Qualquer coisa eu me viro...

Eu: Quase. To me recuperando, mas já dá pra começar a brincar. Tem coisas que a gente se acostuma. Me manda o link do Abujamra?

Ela: Depois... Vê cá agora... Deixa de ser chato e para de falar. Você precisa aprender a calar a boca de vez em quando. Me come de novo?

Eu: Como. Mas você falou que não quer ser acostumar.

Ela: Falei? Não lembro. Me come?


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O dia seguinte.


(Não sei se devia avisar, mas essa é a continuação de "O dia não prometia nada, mas...")

Sábado. Acordei às 6:30h da manhã. Sempre tenho dificuldades em acordar cedo. Ou para levantar cedo. Acho que acordar, de verdade, requer que a mente e os reflexos estejam despertos. Não basta abrir os olhos.

Invariavelmente acordo as sete, às seis da manhã, mesmo com o despertador colocado para as oito. E entre o acordar e o levantar parece haver uma eternidade. São sempre infinitas as possibilidades. Possibilidades que giram em torno da fé plena que é possível dormir apenas mais cinco minutos. A fé é mais forte que a razão e as evidências. Mas a fé é tola também. E insistente. O corpo sempre pede mais cama, mas a mente se culpa e se tortura, não se entregando ao relaxamento, imprimindo ao corpo mais cansaço. Há um habito cruel nessa rotina da briga da mente com o corpo físico e sempre quem perde sou eu. Essa briga dura sempre mais que cinco minutos. Às vezes dura mais de duas horas. Às vezes se estende por todo o dia, principalmente pelas as manhãs de terça. Odeio terças feiras. Não sei por quê.

Mas era sábado, 6:30h da manhã e não havia motivo nenhum para estar acordado. Mas, no entanto, a mente completamente desperta decidiu ignorar os apelos do corpo por mais algumas horas de sono. Poderia ter dormido aquele dia inteiro.

Ao contrário do dia anterior, quando o céu doía de tanto azul, o céu daquele sábado estava estranhamente branco. Deitado na cama, eu olhava pela janela do quarto e o céu estava branco. Não se via as nuvens, ou melhor, o contorno das nuvens. As nuvens estavam lisas, fazendo do céu um tapete branco, completamente branco... E é difícil não prestar atenção em um céu tão estranho assim. E, acordado, mas não completamente desperto, eu via o dia clarear, com pensamento vazio, mas com resquícios daquilo que sobra dos sonhos... E pensando nos sonhos, me veio a imagem da mulher que eu encontrei no almoço, sexta, no MAM.

Tem horas em que é preciso exercitar a memória, senão, passado um tempo, o que a gente lembra é algo feito de poucos fragmentos de realidade, preenchido por toneladas de ilusão. A memória é sim uma ilha de edição. E, poxa, que delícia, que bom, nesse estágio letárgico, lembrar da mulher do MAM. A mulher que não tinha nome, ou melhor, que não havia dito o nome, é na minha cabeça a mulher do MAM. Tenho dúvidas se sonhei com ela naquela noite, mas certamente sonhei com ela naquele momento de briga com o despertar.

E ali, deitado na cama, olhando um céu estranhamente branco, eu lembrava aquele encontro mais que inusitado. Lembrava de detalhes, recapitulava as palavras que haviam sido ditas, gestos, imagens. Tentava reconstituir, palavra por palavra, o diálogo daquele jogo. É difícil esse exercício para uma pessoa como eu, que só tem memória afetiva, não tem memória dos fatos, apenas das sensações em torno dos fatos. Era, por isso, importante acordar e pensar naquele encontro. Para que aquela história tivesse mais realidade do que fantasia. Com o tempo, se aquele encontro com a mulher do MAM tivesse sido o único, certamente a história viraria apenas uma fantasia. Seria, de qualquer maneira, fantasia ou realidade, uma excelente história. E ali, deitado na cama, brincava de lembrar e de preencher com ilusões aquilo que eu não lembrava. E, nas lembranças, havia aquela mulher. Uma mulher espetacular. Linda, morena, sexy, livre, deliciosamente livre e com um sorriso largo. Não era preciso qualquer fantasia para melhorar a lembrança da imagem daquela mulher.

E assim se passou uma manhã de sábado. Eu deitado na cama olhando o céu branco que lentamente se desfazia, deixando aparecer azuis, pensando no encontro do dia anterior. Pensei se eu havia dito algo errado, se eu podia ter feito algo pra conseguir aquela mulher. Sim, certamente, mas não sabia o que. Mas talvez não, se lá. Era, e sempre será, uma dúvida. E quando o pensamento mudou das lembranças deliciosas daquele delicado encontro para uma angustia e cobrança sobre o que poderia ter sido feito de melhor, coincidentemente percebi que o céu estava totalmente azul e sem nuvens. Sem perceber, elas se foram. Era preciso aproveitar a beleza daquele dia. Sempre é preciso aproveitar os dias bonitos.

E assim foi. Corridinha nas Paineiras, banho de cano, água gelada, vista do Rio, caminhada reflexiva de volta ao carro, pernas cansadas, dia frio, com sol, mas lindo. O Rio é uma cidade que me mima. É impressionante como ele me trata bem. E, ainda assim, com todas as distrações do mundo, com todos os mimos, pernas cansadas e, naquele momento, fome, eu ainda pensava na mulher do MAM. Enquanto caminhava, em um esboço de roteirista, eu  planejava cenas de um eventual encontro, com direto a olhares, cenas, pausas e suspiros. Fazia tempos que eu não me sentia assim e, naquele momento, eu sentia-me mais seguro em fazer roteiro sobre utopias do que sobre situações reais. Mesmo tendo acontecido o encontro no dia anterior, eu sabia que era praticamente impossível encontrá-la novamente. E, além disso, dificilmente haveria, nesse segundo encontro, o impacto, a surpresa e as impressões marcantes ocorridas no dia anterior. A sorte não bate duas vezes na mesma porta. Ou não sempre.

Já eram quase uma da tarde quando o telefone tocou. Um amigo. Amigos são poucos. Não o via fazia uns oito meses, talvez quase um ano. Essa coisa de trabalho, de tempo, de família. Éramos quase vizinhos, mas as agendas não batiam. E era um dia livre, sem nada o que fazer. Um convite para almoçar. Em instantes, acordamos ir pra Santa. Eu estava ali do lado, ele estava perto, o dia estava lindo, mas o frio não nos convidava para uma praia.

Mineiro. Por muito tempo eu morei no Mineiro. Antes mesmo de ter morado em Santa. Casa é aquele lugar onde você se sente acolhido, protegido e livre. E ali, entre pasteis de feijão, turistas, a cumplicidade dos garçons, fotografias, enfeites, Original gelada e batida ‘afrodisíaca’ de gengibre, eu me sentia assim, acolhido. Mineiro sempre teve um lance de ser o sofá de casa... E foi lá, no Mineiro, naquele sábado lindo, céu azul de outono, que fui almoçar com *.

Sábado sempre tem aquela fila absurda no Mineiro. Todo dia tem feijoada, mas nem sempre os cariocas têm tempo, durante a semana, para se dedicar a uma feijoada.  Ainda mais a feijoada do Mineiro. Eu cheguei antes que *, coloquei meu nome na lista de espera, pedi uma Original e um copo. Fiquei na calçada observando as pessoas e nesse momento, mais do que antes, eu desejei a mulher do MAM. Eu olhava as pessoas em volta e não via, de fato, ninguém. Cheguei mesmo a fechar os olhos e a lembrar do cheiro e do sorriso largo daquela mulher. E, naquele momento, observando as pessoas sem vê-las, senti-me vulnerável e ao mesmo tempo são. Era tão obvio e fácil desejar uma ilusão e a mulher do MAM, mesmo tendo sido real naquele encontro, era uma ilusão. Nesse momento, eu respirei. Respirei de fazer força para expirar todo o ar do fundo dos meus pulmões, para em seguida enche-los com a mesma violência. E, com esforço, procurei pessoas para fixar a visão. Era preciso ver a realidade. E a realidade eram duas loiras, gringas, conversando ao meu lado, em um alemão fluente e incompreensível aos meus ouvidos. Não compreender uma palavra do que as pessoas estão falando, mesmo quando estão a poucos centímetros de você, faz parecer haver uma distância entre você e as pessoas. E eu, em busca de alguma realidade, me vi observando aquelas mulheres, loiras, gringas, reais e distantes. Observava-as como quem vê gazelas no zoológico, colado às grades, com misto de curiosidade e indiferença, com uma curiosidade quase cientifica. Não me importei de ser percebido e era quase impossível não ser, pois praticamente eu participava da conversa. Mas, mesmo reais, eram elas, as gringas, menos sedutoras do que o mar de possibilidades que era a fantasia da mulher do MAM. Era um dia bonito, mas era um dia estranho. O mundo estava estranho. Ou estava eu.

Fui salvo por *. Na hora que a situação que eu criara sozinho estava se tornando angustiante, * chegou. E de cara, percebeu que eu não estava bem. É uma sorte não ter que explicar certas angústias. Quando * chegou, me acalmei. E tomamos cerveja em pé por um tempo. E falamos amenidades. E de novo o dia estava  bonito de novo.

* era, ainda é, sempre será, um amigo irmão. Amizade daquelas que transcende tempo e distância. Mas, já disse, não o via há algum tempo e não sabia o que ele estava fazendo da vida. Tomamos umas quatro garrafas antes de conseguirmos uma mesa. E nessas quatro garrafas falamos de trabalho, de saúde, de viagens. Ele continuava com o mesmo emprego, mas estava procurando algo mais calmo, que lhe rendesse mais tempo livre. Havia feito uma cirurgia para uma lesão no ombro, causado por um tombo de moto. Ele estava planejando uma viagem para Bolívia. E eu escutava ele falar. As histórias que ele contava eram reais. Ao menos para ele, elas eram reais. Mas, pra mim, o que ela falava era ilusão. Era preciso imaginar as cenas, as situações, as possibilidades. Mas valia, pra mim, a distração.

Estávamos sentados em uma mesa colada à parede e eu estava de frente para a rua. Sem perceber o meu silêncio, continuava a falar. Eu continuava a ouvir, mas observava também as pessoas na rua. Era preciso distrair-me. E ele falou das mulheres com que havia saindo. Contou por auto que havia saído por um tempo com a irmã da minha ex mulher, mas que agora estava namorando. E mais, estava completamente alucinado com a mulher que conhecera em um encontro fantástico. E, eu, pegando esse gancho de encontros e cansado de tanto escutar, vomitei toda a minha ansiedade e desconforto. Interrompi a história de *, contando todos os detalhes, reais e inventados, do encontro com a mulher do MAM.

Descrevi o encontro, colocando agora em palavras todas as sensações e impressões que tive. E falei da minha surpresa, da minha falta de expectativa, da minha vulnerabilidade, do poder e da força da mulher livre que eu havia conhecido. Verbalizei fantasias de um segundo encontro, o que eu faria, o que eu não faria. Falei de estratégias para procurá-la e a certeza, que até então eu não tinha, de que eu ainda a encontraria de novo. E eu falei tudo isso sem a menor calma, lógica e ordem. E * me escutava, feliz e confuso, tentando se entender no caos do meu discurso. Do pouco que entendia, e não entendia quase nada do que eu falava, ele percebeu que eu estava feliz. E eu estava. Havia, depois de muito tempo, algo que me angustiava e isso me deixava feliz. Eu havia passado muito tempo indiferente ao mundo, nada me interessava, mas a angustia era um sinal de vida e isso me deixava feliz.

Falei tanto, por tanto tempo, que cansei. E rimos. Estávamos já na oitava garrafa de cerveja e na sexta dose de gengibre. Longe de estarmos bêbados, estávamos felizes. Cada um com seus motivos. E rimos. Era bom estar com um amigo naquela hora.  Era um dia muito bonito.

E, no meio daquele riso, pareceu-me que aquele dia bonito seria também meu dia de sorte. A mulher do MAM entrava lentamente no Mineiro. Perdi o ar. Olhei-a com olhos de câmera lenta e eu já não escutava nem mais um som das mesas vizinhas. Eu escutava apenas as batidas do meu coração. Ela vestia um sorriso largo, cabelos soltos, óculos escuros, grandes. Vestia também uma calça jeans justa, baixa, com uma blusa preta, duplamente generosa, por deixar a mostra uma cintura fina com barriga definida, numa pele dourada pelo sol, e pelo generoso decote que insinuava mais que mostrava e que, em mim, dava água na boca. Ela, nos meus olhos de câmera lenta, no alto de seus saltos vermelhos, movia com uma harmonia cinematográfica. Seus cabelos tinham um movimento que competiam com o de sua cintura e eu já não sabia para onde olhar.

Perdi todas as estratégias e idéias que havia imaginado. Eu estava chocado, surpreso, impressionado, maravilhado, admirado, arrebatado por aquela imagem. Eu estava sem ar. Não havia ar suficiente no mundo para mim.

E ela vinha na minha direção, sorriso largo e passos firmes e harmônicos. E eu, abestado, sorri de volta. Respirei e senti que, em instantes, já seria possível falar.
* se levantou. Eu também. Ele a e mulher do MAM cumprimentaram-se com um beijo singelo na boca. Ele me apresentou, “essa é Ana, minha namorada.”

E eu perdi o ar. De novo.

Ana. Palindromicamente Ana.

Sem tirar os óculos escuros, ela estendeu a mão, com seus braços longos, delicados e definidos, e era uma mão firme e disse “prazer”.

E eu pensei em todos os sentidos da palavra prazer, seus sinônimos, suas aplicações e possibilidades. E sem, ar, eu nada respondi.

Sentamos e * começou a falar, mas havia, ainda para mim, o maior silêncio do mundo. Via de canto de olho os movimentos dos lábios de *, mas eu só ouvia o silêncio dos meus pensamentos, tentando aterrissar e colocar de novo os pés no chão. Escutava, além, mais forte do que antes, as batidas do meu coração.

No que Ana, e a ela eu escutei claramente, fala ao garçom:
— Que vinho você tem?
— Não sei, vou ver, dona.
— Não vê, não, rapaz, me traz uma taça do que você tiver.
— Não trabalhamos com taças, dona.
— Então me traz uma garrafa, por favor.

E nisso acabou-me o ar, completamente, e nem às batidas do meu coração eu escutava mais.

Foi um dia bonito aquele, mas estranho. Muito estranho. Naquele dia eu voltei a fumar.

A sorte não bate duas vezes no mesmo lugar. Ou não sempre.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Playlist 1

Ouve isso.

Cheiro de mar


Ela acordou sem saber ao certo se ainda eram oito da noite ou se já eram cinco da manhã. Acordou sem querer acordar. Teve de novo um sonho daqueles que não sabia mais se era sonho. Acordou e ainda sonhava. Acordou cansada. Mais cansada do que fora dormir.

Era a primeira folga que tinha em um mês e estava entrando no terceiro dos quatro dias que iria ficar em casa. Estava mais cansada que antes. Havia se acostumado ao trabalho de madrugada, mas havia uma dívida de horas de sono que o corpo se recusava a pagar. Precisava e queria descansar. Acordou e ainda sonhava. Havia ido dormir para parar de pensar. Mas pensar era só o que fizera. Estava cansada.

Sonhava com um homem. Sonhava recorrentemente com um homem. O mesmo homem. Não sabia seu nome, nem seu rosto, nem nada, mas era uma figura constante em seus sonhos recentes. Sentia seu cheiro ao acordar e era como se ele estivesse estado dentro dela, como se ele a tivesse invadido cada milímetro de suas entranhas e deixado seu cheiro por lá. E ele cheirava a mar. Aquele misto de sal, areia, água, vento e sol, aquele cheiro de porra apodrecida, de sexo de ontem. Ela lembrava dele, sentia o cheiro de mar e lembrava de porra velha. Achava que tinha o mesmo cheiro de quando passava dias trancada no quarto, trepando, bebendo e fumando, sem comida e sem banho. Sim, houve épocas que se trancava no quarto com o namorado, com o amigo, com a amiga, com que fosse e só saia quando estava a beira da morte, esquálida e de pernas bambas. E o quarto ia acumulando um cheiro de suor e porra, de fluidos, que, depois de um tempo, lembrava cheiro de mar. E ela lembrava do homem do sonho apenas pelo cheiro de mar. Ou da sua porra velha... Tinha um tesão sem fim  naquele cheiro, ainda mais naquele homem sem nome e sem rosto. No dia anterior tinha sonhado com ele e pode jurar que, ao seu lado, a cama estava quente e úmida. Noutro dia, o sonho havia sido no banho. E sempre, sempre, lhe sobrava o cheiro de mar.

Precisava e queria descansar.  Mas acordou e ainda sonhava. E naquele acordar cansado, com tesão e cheiro de mar, tentava lembrar do sonho que acabara de ter. Como o travesseiro entre as pernas, lembrava das mãos daquele homem. Lembrava da aspereza do toque, da grossura dos dedos, das marcas e, principalmente, do tamanho. Eram mãos enormes. Seus dedos pareciam assustadoramente sexies. Dedos grossos, brutos. Respirava e apertava contra si o travesseiro.  O toque daquelas mãos a fazia suspirar. E suspirando, voltava àquele lugar que fica antes do sonho, depois do acordar. Àquele limbo onde não sabemos bem onde estamos, ou quando estamos... E assim, com as mãos grandes e ásperas, dedos grossos, que a faziam suspirar e apertar o travesseiro contra o meio de suas pernas, segurando as suas mãos, leves e delicadas, ela adentrou, cansada, aquele sonho acordado. Bebiam whisky, sem gelo, em um bar antigo do centro, e seus goles eram fortes e grandes e o whisky lhe descia a garganta como se fosse água. As mesas era pequenas, o bar quase vazio, muitas fotografias na parede, gente famosa nos retratos. Gente famosa e morta. Ela já havia estado lá. Só o copo de whisky destoava. Era um copo de vidro vagabundo, Aquele copo não era dali. Ela não via o rosto daquele homem, mas via cada detalhe daquele lugar e daquele corpo grande parado à sua frente. Sim, definitivamente, ela o conhecia, apesar de não o reconhecer. Ela tentava acompanhá-lo no whisky, mas ele bebia com uma sede de outros tempos. O copo se enchia sozinho, mas ela não via como. Ficou curiosa, mas ela não queria perder aquele homem de vista. Tinha a sensação que se desviasse mais uma vez o olhar para qualquer lugar, ele desapareceria. E assim, ficou, olhando-o beber e respirar.  Sua respiração era profunda, quase eqüina, bestial. Podia-se ouvir o ar entrando pelo seu nariz e dilatando seus pulmões. O peito estufava-se e era uma cena que a hipnotizava. E naquele sonho que não era sonho, não trocaram uma só palavra. Olhavam-se, ele sem rosto, seguravam-se as mãos e ele bebia.  Havia silêncio, tensão e tesão. A vontade dela era subir naquele homem grande, no meio daquele bar, tirar-lhe a roupa, sentir-lhe por dentro e deixar-se invadida por aquele cheiro de mar. Apertava o travesseiro, enquanto ele tomava mais um gole. Gozou.

Respirava ofegante e então entendeu. Não sabia porque, mas devia àquele homem no sonho. Olhava-o as mãos, os braços, o peito largo, as marcas e soube que lhe devia uma trepada. Não, não era apenas que ela queria, e sim, queria e queria muito, trepar com ele. Mas, por qualquer motivo, ela lhe devia isso. E ele apareceria em seus sonhos diariamente para, silenciosamente, lhe lembrar dessa dívida. Abriu os olhos e viu as paredes do quarto. Ainda era escuro. Talvez fosse oito da noite, talvez fosse cinco da manhã. Fechou os olhos e sem dificuldade voltava aquele bar. Estava lá parado o homem de mãos grandes e largas, copo vazio, sem rosto.  Ela levanta e no meio do bar e por baixo do vestido, tira a calcinha. Coloca-a dentro do copo. Era a forma dela dizer que queria pagar aquela dívida.

Abriu os olhos. Estava mais acordada que nunca. Foi à cozinha. Eram duas da manhã. Precisava dormir mais um pouco. Estava de folga e tinha que descansar, pois o trabalho, trabalho de merda, voltaria com todo gás em dois dias. Pegou o rivotril. Sete gotas deveriam bastar.  Sabe que não tem adiantado muito. Já teve tempo em que sete gotas bastavam. Precisa relaxar. Depois de gozar ela sempre acorda. Tem as pernas bambas e o corpo cansado. Serve-se de whisky. Puro. No copo de cristal, próprio pra isso. A mente está a mil. Fecha os olhos. Sente o cheiro do mar. Ou seria o cheiro de porra velha? Gosta dos dois e acha que os dois têm o mesmo cheiro. Queria que aquele homem lhe batesse à porta. Odeia dever a alguém. Ainda mais essa dívida.