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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Gritos e Silêncios

Olhava fixamente para o espelho. Era um espelho de corpo inteiro. Era um espelho liso e grande em uma pequena sala quase vazia e que estava ali para dar a impressão de um espaço maior. Olhava intrigado para seus movimentos invertidos. Olhava fixamente para o espelho. Olhava-se, olhos nos olhos, e seus olhos, verdes escuro, estavam vermelhos. Queria não mais beber. E queria nunca mais chorar. 

Fazia três meses que bebia e chorava, diariamente. Fazia três meses que não saia de casa, exceto para beber e para chorar. Comer, eventualmente. Fazia três meses que matara sua esposa. Fora um acidente. Sim, houve um briga, sim, eles discutiram, mas ele só queria que ela parasse de gritar. Gritar com ele. Que ao menos Lavínia gritasse com as paredes, com as plantas, com outros, com o espelho. Mas não com ele. Ele não agüentava mais seus gritos. Lavínia gritava com ele fazia um tempo e ele sempre pedia para ela parar. Dizia que ela podia dizer o que quisesse, que podia lhe xingar, lhe maldizer, lhe amaldiçoar, mas, gritar, por favor, ele não agüentava. E, naquele dia, três meses atrás, os gritos dela lhe pareceram insuportáveis. Ele só queria que ela se calasse.

Ele olhava seu corpo pelo espelho. Ele costumava ser grande, corpulento, alto, largo, mas o que ele via era a imagem de um flagelo, um homem pequeno, sujo, sórdido, de uma feiúra obscena. Tinha as mãos grandes, largas, cheia de veias e pequenas cicatrizes, marcas. Tinha dedos grossos. Três dias depois que a matara, as marcas destes dedos eram como duas luvas pretas no pescoço de Lavínia. Pensou apertar seu pescoço com a mesma força do que quando faziam sexo e ele a deixava sem ar, fazendo-a gozar logo assim que a soltava. Era comum aos dois a tal da asfixia erótica. Era raro fazê-la perder a consciência enquanto transavam, mas naquele dia talvez, ele não lembra, talvez ele tenha apertado um pouco mais. Ele não lembra. 

Ele que assim que pegou no pescoço de Lavínia, ela parou de gritar. Fez um silêncio que há muito não ouvia. Um silêncio que lhe acompanha até hoje. Um som de paz. Ele lembra que seus olhos verdes ficaram abertos durante todo aquele momento. Não piscaram nenhuma vez. Eram lindos seus olhos verdes. Duas piscinas. Olhos verde mar, mais claros que os seus. Era difícil não ser hipnotizado por aqueles olhos. E naquele silêncio, era lindo vê-los. Ele apertou o pescoço de Lavínia achando-a a mais linda das mulheres. Como a amava. Naquele silencio e paz, diante de tanta beleza, ele teve a certeza de que a amava e de que nunca havia amado tanto uma pessoa. Era ali, prestes a se tornar só seu corpo, a mais belas das mulheres. Ela era um anjo. E ele queria amá-la, assim, angelicamente, para sempre. Naquele silêncio e paz, diante de um anjo, ele estava feliz.

Só percebeu que a matara quando aqueles olhos lindos e verdes perderam o brilho, ganharam uma tonalidade cinza. Soltou seu pescoço com dores na mão, de tanto tempo, não sabe o quanto, contemplando os olhos da esposa e apreciando o silêncio. Ele não a queria morta, mas seu primeiro pensamento era de que nunca a vira tão bonita. 

Lavínia era uma mulher vil, oportunista, maquiavélica e linda. Era mais linda que todas as mulheres e era também a mais sedutora delas. Quando ele já não a servia, passou a destratá-lo e, pior, a gritar com ele. Gritava quando brigava, gritava quando falava, gritava quando sorria, gritava até quando dormia. A todo momento, ela gritava com ele. Se havia algo que dava prazer em Lavínia nos sues últimos tempos, era gritar com ele. Ela gritava e em seguida ria. Caia na gargalhada ao vê-lo desesperado e incomodado com seus gritos. Por muito ele aturou os destratos, não se importava com os xingamentos, mas os gritos ele nunca suportou. Ele sempre pedia a ela para parar e ela nunca parava. Até que parou para sempre. Mas mesmo vil, Lavínia não merecia uma morte assim.

Seu corpo foi jogado ao mar quase uma semana depois de sua morte. O álibi que ele dera à polícia era fraco, mas a policia não suspeitou dele. A família dela não acredita no desaparecimento e vê o isolamento do marido como uma profunda depressão pela perda da mulher. Eles sabem que ele a amava muito e que nunca a mataria. 

Mas ele a matou e chora todo dia pela sua morte. E agora olha para o espelho, vendo a figura decrépita que se tornou. A imagem refletida no espelho já não era a sua. E a imagem do espelho já não era mesmo. A imagem do espelho ria. De inicio, ria de canto de boca, um pequeno sorriso, que se transformou lentamente em um riso acido, seguido por um riso histérico. Histérico e satisfeito. A imagem a sua frente já não era sua. Seu reflexo era forte como sempre fora. E ria com uma satisfação primitiva e gutural, um riso alto. Ria com os olhos vermelhos, vivos, com uma gargalhada frenética a mostrar todos os dentes. E os dentes eram grandes, a boca era grande, era, a imagem histérica de si, grande e assustador.
Ele, que olhava a tudo com espanto, teve medo da sua imagem. Aquele homem que ria e o assustava era o mesmo que não agüentou ser maltratado pela a esposa. Era ele, a imagem e não ele, quem via, o assassino. Ele disse, assustado e quase sem voz: “Assassino...”

E a imagem, sem parar de rir, lhe respondeu: “Eu te libertei daquela vagabunda! Você é livre! E agora eu quero viver!!”

E ele então deu um soco no espelho, quebrando-o em pedaços que caíram ao chão. Pedaços que ainda refletiam sua imagem e essa imagem, estilhaçada, gargalhava ainda mais, como se o som dos mil pedaços se amplificasse por mil vezes. E a imagem do espelho quebrado, entre gargalhadas e risos, começou a falar “O assassino é você, o assassino é você”.

E começou falando baixinho, bem baixinho e foi aumentando a voz, pouco a pouco. Ele, o homem, pisoteava os cacos de vidro no espelho, mas, quanto mais pedaços ele criava, mais altas eram as gargalhadas e as palavras que ele falava. E as palavras, altas, agora eram gritos, gritos, gritos...

E ele, quase já em prantos, suplicou “Não grite comigo, por favor, não grite comigo”, no que os gritos ganharam mais força... “O assassino é você!!! O assassino é você!!!”. 

Com um pedaço pontiagudo de vidro em cada mão, ele lentamente e com toda sua força golpeou os próprios ouvidos, alternando os lados, uma, duas, três, quatro vezes e mais, até cair no chão. Fez-se novamente o silencio e a paz. E era a maior paz do mundo. E naquele silencio ele sorriu e achou bonito o vermelho de sue sangue refletido em mil pedaços. Em um certo momento, sentiu-se cansado e fechou os olhos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O dia seguinte.


(Não sei se devia avisar, mas essa é a continuação de "O dia não prometia nada, mas...")

Sábado. Acordei às 6:30h da manhã. Sempre tenho dificuldades em acordar cedo. Ou para levantar cedo. Acho que acordar, de verdade, requer que a mente e os reflexos estejam despertos. Não basta abrir os olhos.

Invariavelmente acordo as sete, às seis da manhã, mesmo com o despertador colocado para as oito. E entre o acordar e o levantar parece haver uma eternidade. São sempre infinitas as possibilidades. Possibilidades que giram em torno da fé plena que é possível dormir apenas mais cinco minutos. A fé é mais forte que a razão e as evidências. Mas a fé é tola também. E insistente. O corpo sempre pede mais cama, mas a mente se culpa e se tortura, não se entregando ao relaxamento, imprimindo ao corpo mais cansaço. Há um habito cruel nessa rotina da briga da mente com o corpo físico e sempre quem perde sou eu. Essa briga dura sempre mais que cinco minutos. Às vezes dura mais de duas horas. Às vezes se estende por todo o dia, principalmente pelas as manhãs de terça. Odeio terças feiras. Não sei por quê.

Mas era sábado, 6:30h da manhã e não havia motivo nenhum para estar acordado. Mas, no entanto, a mente completamente desperta decidiu ignorar os apelos do corpo por mais algumas horas de sono. Poderia ter dormido aquele dia inteiro.

Ao contrário do dia anterior, quando o céu doía de tanto azul, o céu daquele sábado estava estranhamente branco. Deitado na cama, eu olhava pela janela do quarto e o céu estava branco. Não se via as nuvens, ou melhor, o contorno das nuvens. As nuvens estavam lisas, fazendo do céu um tapete branco, completamente branco... E é difícil não prestar atenção em um céu tão estranho assim. E, acordado, mas não completamente desperto, eu via o dia clarear, com pensamento vazio, mas com resquícios daquilo que sobra dos sonhos... E pensando nos sonhos, me veio a imagem da mulher que eu encontrei no almoço, sexta, no MAM.

Tem horas em que é preciso exercitar a memória, senão, passado um tempo, o que a gente lembra é algo feito de poucos fragmentos de realidade, preenchido por toneladas de ilusão. A memória é sim uma ilha de edição. E, poxa, que delícia, que bom, nesse estágio letárgico, lembrar da mulher do MAM. A mulher que não tinha nome, ou melhor, que não havia dito o nome, é na minha cabeça a mulher do MAM. Tenho dúvidas se sonhei com ela naquela noite, mas certamente sonhei com ela naquele momento de briga com o despertar.

E ali, deitado na cama, olhando um céu estranhamente branco, eu lembrava aquele encontro mais que inusitado. Lembrava de detalhes, recapitulava as palavras que haviam sido ditas, gestos, imagens. Tentava reconstituir, palavra por palavra, o diálogo daquele jogo. É difícil esse exercício para uma pessoa como eu, que só tem memória afetiva, não tem memória dos fatos, apenas das sensações em torno dos fatos. Era, por isso, importante acordar e pensar naquele encontro. Para que aquela história tivesse mais realidade do que fantasia. Com o tempo, se aquele encontro com a mulher do MAM tivesse sido o único, certamente a história viraria apenas uma fantasia. Seria, de qualquer maneira, fantasia ou realidade, uma excelente história. E ali, deitado na cama, brincava de lembrar e de preencher com ilusões aquilo que eu não lembrava. E, nas lembranças, havia aquela mulher. Uma mulher espetacular. Linda, morena, sexy, livre, deliciosamente livre e com um sorriso largo. Não era preciso qualquer fantasia para melhorar a lembrança da imagem daquela mulher.

E assim se passou uma manhã de sábado. Eu deitado na cama olhando o céu branco que lentamente se desfazia, deixando aparecer azuis, pensando no encontro do dia anterior. Pensei se eu havia dito algo errado, se eu podia ter feito algo pra conseguir aquela mulher. Sim, certamente, mas não sabia o que. Mas talvez não, se lá. Era, e sempre será, uma dúvida. E quando o pensamento mudou das lembranças deliciosas daquele delicado encontro para uma angustia e cobrança sobre o que poderia ter sido feito de melhor, coincidentemente percebi que o céu estava totalmente azul e sem nuvens. Sem perceber, elas se foram. Era preciso aproveitar a beleza daquele dia. Sempre é preciso aproveitar os dias bonitos.

E assim foi. Corridinha nas Paineiras, banho de cano, água gelada, vista do Rio, caminhada reflexiva de volta ao carro, pernas cansadas, dia frio, com sol, mas lindo. O Rio é uma cidade que me mima. É impressionante como ele me trata bem. E, ainda assim, com todas as distrações do mundo, com todos os mimos, pernas cansadas e, naquele momento, fome, eu ainda pensava na mulher do MAM. Enquanto caminhava, em um esboço de roteirista, eu  planejava cenas de um eventual encontro, com direto a olhares, cenas, pausas e suspiros. Fazia tempos que eu não me sentia assim e, naquele momento, eu sentia-me mais seguro em fazer roteiro sobre utopias do que sobre situações reais. Mesmo tendo acontecido o encontro no dia anterior, eu sabia que era praticamente impossível encontrá-la novamente. E, além disso, dificilmente haveria, nesse segundo encontro, o impacto, a surpresa e as impressões marcantes ocorridas no dia anterior. A sorte não bate duas vezes na mesma porta. Ou não sempre.

Já eram quase uma da tarde quando o telefone tocou. Um amigo. Amigos são poucos. Não o via fazia uns oito meses, talvez quase um ano. Essa coisa de trabalho, de tempo, de família. Éramos quase vizinhos, mas as agendas não batiam. E era um dia livre, sem nada o que fazer. Um convite para almoçar. Em instantes, acordamos ir pra Santa. Eu estava ali do lado, ele estava perto, o dia estava lindo, mas o frio não nos convidava para uma praia.

Mineiro. Por muito tempo eu morei no Mineiro. Antes mesmo de ter morado em Santa. Casa é aquele lugar onde você se sente acolhido, protegido e livre. E ali, entre pasteis de feijão, turistas, a cumplicidade dos garçons, fotografias, enfeites, Original gelada e batida ‘afrodisíaca’ de gengibre, eu me sentia assim, acolhido. Mineiro sempre teve um lance de ser o sofá de casa... E foi lá, no Mineiro, naquele sábado lindo, céu azul de outono, que fui almoçar com *.

Sábado sempre tem aquela fila absurda no Mineiro. Todo dia tem feijoada, mas nem sempre os cariocas têm tempo, durante a semana, para se dedicar a uma feijoada.  Ainda mais a feijoada do Mineiro. Eu cheguei antes que *, coloquei meu nome na lista de espera, pedi uma Original e um copo. Fiquei na calçada observando as pessoas e nesse momento, mais do que antes, eu desejei a mulher do MAM. Eu olhava as pessoas em volta e não via, de fato, ninguém. Cheguei mesmo a fechar os olhos e a lembrar do cheiro e do sorriso largo daquela mulher. E, naquele momento, observando as pessoas sem vê-las, senti-me vulnerável e ao mesmo tempo são. Era tão obvio e fácil desejar uma ilusão e a mulher do MAM, mesmo tendo sido real naquele encontro, era uma ilusão. Nesse momento, eu respirei. Respirei de fazer força para expirar todo o ar do fundo dos meus pulmões, para em seguida enche-los com a mesma violência. E, com esforço, procurei pessoas para fixar a visão. Era preciso ver a realidade. E a realidade eram duas loiras, gringas, conversando ao meu lado, em um alemão fluente e incompreensível aos meus ouvidos. Não compreender uma palavra do que as pessoas estão falando, mesmo quando estão a poucos centímetros de você, faz parecer haver uma distância entre você e as pessoas. E eu, em busca de alguma realidade, me vi observando aquelas mulheres, loiras, gringas, reais e distantes. Observava-as como quem vê gazelas no zoológico, colado às grades, com misto de curiosidade e indiferença, com uma curiosidade quase cientifica. Não me importei de ser percebido e era quase impossível não ser, pois praticamente eu participava da conversa. Mas, mesmo reais, eram elas, as gringas, menos sedutoras do que o mar de possibilidades que era a fantasia da mulher do MAM. Era um dia bonito, mas era um dia estranho. O mundo estava estranho. Ou estava eu.

Fui salvo por *. Na hora que a situação que eu criara sozinho estava se tornando angustiante, * chegou. E de cara, percebeu que eu não estava bem. É uma sorte não ter que explicar certas angústias. Quando * chegou, me acalmei. E tomamos cerveja em pé por um tempo. E falamos amenidades. E de novo o dia estava  bonito de novo.

* era, ainda é, sempre será, um amigo irmão. Amizade daquelas que transcende tempo e distância. Mas, já disse, não o via há algum tempo e não sabia o que ele estava fazendo da vida. Tomamos umas quatro garrafas antes de conseguirmos uma mesa. E nessas quatro garrafas falamos de trabalho, de saúde, de viagens. Ele continuava com o mesmo emprego, mas estava procurando algo mais calmo, que lhe rendesse mais tempo livre. Havia feito uma cirurgia para uma lesão no ombro, causado por um tombo de moto. Ele estava planejando uma viagem para Bolívia. E eu escutava ele falar. As histórias que ele contava eram reais. Ao menos para ele, elas eram reais. Mas, pra mim, o que ela falava era ilusão. Era preciso imaginar as cenas, as situações, as possibilidades. Mas valia, pra mim, a distração.

Estávamos sentados em uma mesa colada à parede e eu estava de frente para a rua. Sem perceber o meu silêncio, continuava a falar. Eu continuava a ouvir, mas observava também as pessoas na rua. Era preciso distrair-me. E ele falou das mulheres com que havia saindo. Contou por auto que havia saído por um tempo com a irmã da minha ex mulher, mas que agora estava namorando. E mais, estava completamente alucinado com a mulher que conhecera em um encontro fantástico. E, eu, pegando esse gancho de encontros e cansado de tanto escutar, vomitei toda a minha ansiedade e desconforto. Interrompi a história de *, contando todos os detalhes, reais e inventados, do encontro com a mulher do MAM.

Descrevi o encontro, colocando agora em palavras todas as sensações e impressões que tive. E falei da minha surpresa, da minha falta de expectativa, da minha vulnerabilidade, do poder e da força da mulher livre que eu havia conhecido. Verbalizei fantasias de um segundo encontro, o que eu faria, o que eu não faria. Falei de estratégias para procurá-la e a certeza, que até então eu não tinha, de que eu ainda a encontraria de novo. E eu falei tudo isso sem a menor calma, lógica e ordem. E * me escutava, feliz e confuso, tentando se entender no caos do meu discurso. Do pouco que entendia, e não entendia quase nada do que eu falava, ele percebeu que eu estava feliz. E eu estava. Havia, depois de muito tempo, algo que me angustiava e isso me deixava feliz. Eu havia passado muito tempo indiferente ao mundo, nada me interessava, mas a angustia era um sinal de vida e isso me deixava feliz.

Falei tanto, por tanto tempo, que cansei. E rimos. Estávamos já na oitava garrafa de cerveja e na sexta dose de gengibre. Longe de estarmos bêbados, estávamos felizes. Cada um com seus motivos. E rimos. Era bom estar com um amigo naquela hora.  Era um dia muito bonito.

E, no meio daquele riso, pareceu-me que aquele dia bonito seria também meu dia de sorte. A mulher do MAM entrava lentamente no Mineiro. Perdi o ar. Olhei-a com olhos de câmera lenta e eu já não escutava nem mais um som das mesas vizinhas. Eu escutava apenas as batidas do meu coração. Ela vestia um sorriso largo, cabelos soltos, óculos escuros, grandes. Vestia também uma calça jeans justa, baixa, com uma blusa preta, duplamente generosa, por deixar a mostra uma cintura fina com barriga definida, numa pele dourada pelo sol, e pelo generoso decote que insinuava mais que mostrava e que, em mim, dava água na boca. Ela, nos meus olhos de câmera lenta, no alto de seus saltos vermelhos, movia com uma harmonia cinematográfica. Seus cabelos tinham um movimento que competiam com o de sua cintura e eu já não sabia para onde olhar.

Perdi todas as estratégias e idéias que havia imaginado. Eu estava chocado, surpreso, impressionado, maravilhado, admirado, arrebatado por aquela imagem. Eu estava sem ar. Não havia ar suficiente no mundo para mim.

E ela vinha na minha direção, sorriso largo e passos firmes e harmônicos. E eu, abestado, sorri de volta. Respirei e senti que, em instantes, já seria possível falar.
* se levantou. Eu também. Ele a e mulher do MAM cumprimentaram-se com um beijo singelo na boca. Ele me apresentou, “essa é Ana, minha namorada.”

E eu perdi o ar. De novo.

Ana. Palindromicamente Ana.

Sem tirar os óculos escuros, ela estendeu a mão, com seus braços longos, delicados e definidos, e era uma mão firme e disse “prazer”.

E eu pensei em todos os sentidos da palavra prazer, seus sinônimos, suas aplicações e possibilidades. E sem, ar, eu nada respondi.

Sentamos e * começou a falar, mas havia, ainda para mim, o maior silêncio do mundo. Via de canto de olho os movimentos dos lábios de *, mas eu só ouvia o silêncio dos meus pensamentos, tentando aterrissar e colocar de novo os pés no chão. Escutava, além, mais forte do que antes, as batidas do meu coração.

No que Ana, e a ela eu escutei claramente, fala ao garçom:
— Que vinho você tem?
— Não sei, vou ver, dona.
— Não vê, não, rapaz, me traz uma taça do que você tiver.
— Não trabalhamos com taças, dona.
— Então me traz uma garrafa, por favor.

E nisso acabou-me o ar, completamente, e nem às batidas do meu coração eu escutava mais.

Foi um dia bonito aquele, mas estranho. Muito estranho. Naquele dia eu voltei a fumar.

A sorte não bate duas vezes no mesmo lugar. Ou não sempre.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Colecionador I


Entrou em casa ainda tonto, foi direto à cozinha e pegou um copo d’água. Olhava fixamente para o copo em suas mãos. A sensação fria do copo na pele havia lhe chamado a atenção. Era a primeira vez em duas horas que respirava.

Morava sozinho em um apartamento pequeno, quarto, cozinha e banheiro, mas com uma vista linda pra baia. Pão de Açúcar a direita, Santos Dumont a esquerda, sem prédios. Céu azul já era claro. Aquele seria um dia lindo, mas ele só pensava que não ira conseguir dormir com aquele sol e que daqui a pouco já estaria com uma puta dor de cabeça. Amanhecia e a luz amarelada do sol atravessava a janela sem cortinas, espantando o frio do fim da madrugada. Os poucos móveis faziam que o apartamento parecesse maior. Era apenas uma pequena mesa de madeira com verniz descascado, onde ficava seu computador e a cadeira, um pequeno sofá cujo estofamento já havia sido deformado há tempos, um armário de duas portas comprado há menos de dois meses e com as portas já desalinhadas. Havia uma cama grande e confortável, seu único artigo de luxo. Nada ali era lixo. Só não era importante. E não que fosse uma cama de luxo, mas era melhor que o resto. Havia também uma cozinha, com uma geladeira velha que estava sempre vazia e um fogão que ele nunca havia ligado. Na geladeira tinha água. Água comprada em garrafas. Ele não confiava em filtros. Havia dois ovos na porta da geladeira. Alguém os trouxe e ele acreditava que alguém os levaria de volta. Tinha certeza que não eram seus. Havia um armário. Poucos copos, poucos pratos, talheres, duas panelas. Para comer, no mesmo armário, havia um miojo que já devia estar ali fazia seis meses. Não tinha TV. Não tinha tempo nem vontade de ver TV e quando queria ver um filme, usava o computador. Não confiava em TV e nem em filtros. Havia também um espelho. Um grande e velho espelho de corpo inteiro. Havia um ventilador, mas muito barulhento, que só era ligado em noites de desespero ou quando havia visitas.

As visitas eram freqüentes. Mas não eram bem visitas. As visitas importantes eram poucas e raras, dos poucos amigos que tinha. Tinha três. E lhe bastavam estes. E se os encontravam, quase sempre depois de muita insistência da parte deles, preferia os encontrar na rua, vendo o movimento das outras pessoas, ou melhor, das mulheres. Adorava mulheres. Tinha fascínio. Eram todas, sem exceção, bonitas para ele. Sim, haviam as mais bonitas, as menos bonitas, as assustadoramente bonitas e aquelas que ele tinha que se esforçar para ver algo de bonito. Preferia as bonitas, as realmente bonitas. Para um dos seus três amigos, bicha bem resolvida, sempre falava que achava normal ele gostar de homem e que isso era problema dele, mas que não conseguia, de jeito nenhum, entender como ele não gostava de mulher. Mulher era seu vicio. E como todo vicio, aquilo o destruía.

Seu vicio não era de quantidade. Não gostava de ter uma mulher por dia. Não gostava da alta rotatividade. Mas gostava da conquista e, principalmente, gostava mais das mulheres depois de um certo ponto de intimidade. E intimidade, intimidade real, na qual a mulher se dava de alma a ele, demorava um pouco. Seu vicio era ter uma mulher entregue a ele. Passava uns dois meses tentando conquistar uma mulher. Tinha experiência, ou melhor tinha um olho clinico pra saber em qual mulher deveria ir. Raramente errava. Mas errava. Errar era normal, mesmo que raro.Sabia que não era um garanhão, que não era a caça e sabia exatamente onde e como jogar. A mulher que o notasse certamente se apaixonaria por ele. Nesse método, de ganhar intimidade, havia sempre quatro ou cinco mulheres enroladas com ele, fora as tantas em vista. Umas duas no processo de conquista, no “estamos nos conhecendo”, uma no ápice da intimidade, com  a qual ele se deliciava mais, e outra, que, por excesso de intimidade, ele já ia descartando. A intimidade em excesso para ele chamava-se apego, afeto ou qualquer coisa que complicasse a relação. Havia, para ele, um ponto ótima na intimidade que era conhecer e ser reconhecido pela pessoa. Mas quando a pessoa projetava expectativas nele ai já era demais. Era um paradoxo que mantinha o mundo girando. Ele cultivava e exercitava a intimidade até o momento que encontrava na mulher o prazer sexual máximo da entrega, mas a intimidade por si só continuava a crescer e gerava um apego o qual ele não podia suprir. E assim, pouco antes da coisa se estragar, ele partia. Não sem sofrer. Sim, ele sofria ao ver uma mulher bonita – e todas eram – chorar e sofrer. Sim, todas elas choravam. Todas elas sofriam. Algumas aos prantos, desesperadas, angustiadas. Outras em silêncio, duras, orgulhosas. Mas, ele sabia, afinal era intimo delas, do sofrimento daquelas moças. Mas era assim sua vida. Desapego e uma eterna caça. Uma eterna procura. Colecionava mulheres as quais se desfazia.

Saia todos os dias. Tinha um emprego publico, fiscal da fazenda, que lhe pagava bem e lhe sustentava a vida boêmia. Era bom profissional, mas, o emprego exigia pouco dele. Passava um tempo considerável na rua e isso facilitava seu oficio principal. Poderia ter uma casa melhor e uma vida melhor, mas nada lhe era prioridade, exceto as mulheres que conhecia. Saia todos os dias e gostava de sair sozinho. Sempre bem arrumado, freqüentava todos os lugares do Rio, mas sabia se comportar tanto no baile funk quanto nos salões do municipal. Era um caçador.

E era por isso que segurava com raiva aquele copo de água gelada. Um dia era da caça, outro do caçador. E aquele não havia sido o dia dele. Estava há dois meses saindo com uma mulher. Jogadora, malandra e, como todas, bonita. Saia com ela e com outras três, mas essa era a que lhe causava mais dificuldade, a que mais dificultava o jogo. O sexo era maravilhoso. Era uma mulher magra, alta, pernas fortes, uma bunda linda, olhos verdes, mas o que lhe atraia era o sorriso. Sempre amou sorrisos. Mas ainda não eram íntimos. Estavam no processo e ele não tinha certeza de que chegariam a realmente ter a intimidade que ele queria. Era uma caça e era um desafio.

Naquele dia, uma segunda feira, haviam saído para tomar um vinho. Gostava de vinhos, mas nunca tinha tido paciência para estudá-los. Assim como mulheres, sabia apreciá-los. Tomaram duas garrafas de um Awilka 2006 em um restaurante na beira do Aterro e estava ligeiramente bêbados, ou melhor, ela estava. Ele nunca ficava bêbado, não gostava de perder o controle e sabia que precisava sair dali o quanto antes, pois corria o risco da mulher passar do seu ponto e aquela noite teria sido, sexualmente, desperdiçada. Mas ela insistiu. Estava bêbada, mas parecia saber o que dizia. Ele pediu água e insistiu para que saíssem de lá. Ela pediu uma nova garrafa e a conta. Beberiam na casa dela. Ele gostava do ímpeto daquela mulher em assumir o controle. E mesmo sabendo que teria poderia ser mais incisivo, relaxava para ver as demonstrações de poder dela.

Foram então para a casa dela. Abriu a porta com o vestido semi aberto, mostrando as costas nuas, metade da terceira garrafa esvaziada no caminho. Ele começou-lhe a beijar a nuca e as coisas, ao mesmo tempo que batia a porta atrás de si e tirava o resto do vestido dela. Caminharam não para o quarto, mas para cima da mesa de jantar. Vestia apenas seu salto vermelho e sua calcinha preta. Arrepiou-se ao deitar as costas no frio do tampo de vidro. Ele admirava aquele corpo lindo de seios simétricos, aquela barriga absurdamente sexy, aqueles olhos que pareciam uma piscina e aquela boca, onde morava um dos mais belos sorrisos que ele já havia visto. Parou para admirar aquela paisagem por alguns instantes, alguns segundos. Passeava os olhos do seu rosto e descia pelo seu corpo, passando por suas coxas e subia de volta ao seu rosto quando, para sua surpresa, percebeu que a mulher não respirava.

Estava tonto e demorou a entender o que acontecia. Achava a principio que ela havia dormido, bêbada, mas depois de sacudi-la e até bater-lhe a cara, percebeu que estava morta.

Quis entender o que estava acontecendo, mas era prático demais. Não se desesperou. Tentou um respiração boca a boca, uma massagem cardíaca, mas não tinha habilidade nem sucesso. E, principalmente, não tinha apego a ela. Não tinha apego a nada. Era lamentável que morrido. Ainda mais assim, antes de uma trepada que parecia ser sensacional. Mas, pensou, as pessoas morrem, que merda. Pensou em ligar para a policia, mas de cara veio a visão de todo o constrangimento e embaraço que seria aquela situação. Ao mesmo tempo, tentou fixar na memória tudo aquilo que eles havia feito, comido, bebido, falado. Sabia que seria questionado. Só não queria ser questionado agora. Respirou e voltou a olhar o corpo dela sobre a mesa de vidro. Morto era ainda mais lindo. Lamentou, pois viu que desejava muito ter intimidade com aquela mulher. Mas não tinha apego. E aquele corpo não tinha sorriso. Estava, a seu jeito, em choque.

Fumou um cigarro na varanda dela. Era noite. Fazia frio. Decidiu ir pra casa. E lá, segurando o copo d’água gelado, pela primeira vez, respirou.

Que merda, pensou. Esperou dar oito da manhã. Antes era muito cedo para ligar para qualquer pessoa, mesmo um amigo, mesmo em caso de morte. As oito ligou para o amigo, aquele que não gostava de mulher e que era delegado. Enquanto explicava calmamente o caso, pensava que era bom ter amigos.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

O dia não prometia nada, mas

O dia não prometia nada, mas era preciso crer que aquele céu azul de inverno não podia ser desperdiçado. Seria um pecado não contemplar um dia tão bonito. Fazia frio para os padrões cariocas, 20º eu diria, piorado ainda mais com o vento frio que insistia em achar as folgas e brechas do meu paletó. Sim, era sexta e eu estava de paletó... Era sexta-feira, meio de mês, hora do almoço, semana encerrada. Nada do que eu fizesse naquela hora iria mudar minhas pendências da segunda seguinte. Melhor era aproveitar o dia bonito, mas era preciso voltar após o almoço para cumprir a tabela da carga horária semanal. Escravidão dos tempos modernos...

Almoço no MAM, quase na beira da baia. Lugar bonito, de comida boa, já tinha ido duas ou três vezes, poucas mesas. Pessoas de vários tipos:  um casal, grávido, que parecia tenso com a chegada do bebê, mas, ao mesmo tempo, indiscutivelmente feliz por estarem almoçando juntos; uma mesa com quatro pessoas, dois homens, duas mulheres, mas com uma certa tensão no ar, visivelmente entre as duas mulheres, como se os dois homens estivessem, literalmente, sobrando; dois executivos, que, se não fosse pela falta de palavras e por comerem tão absortos em seus pratos, não me chamariam atenção. Outras pessoas, diversas pessoas, coadjuvantes, sem nada de especial a destacar... Pessoas, como eu, de terno, almoçando em uma sexta bonita. Pessoas, como eu, sorrindo. Cada um com seus motivos. A mim, me agradava o prazer intrínseco naquele dia. Não havia planos, não havia nada programado, era uma sexta feira e a agenda estava vazia, mas, já disse, aquele céu azul não podia ser desperdiçado.

No restaurante, havia apenas uma mesa no canto, vazia. Sentei-me, mas mantive-me de óculos escuros para admirar as cenas daquela situação. Pedi minha água ao garçom e já ia me levantando para fazer meu prato quando, de repente, ela chega.

Uma morena vestida de preto, casaco preto, de couro, fechado, blusa branca, saltos vermelhos, alta, linda, magra, sexy, gostosa. Óculos escuros e um sorriso largo que não parecia ter fim. Sem muito rodeios, pergunta numa voz rouca e sexy:

— Não tem mais lugar disponível. Eu tenho pressa. Posso me sentar aqui com você?

Mal escutei o que ela falou, apenas, vi o gesto e respondi sim com a cabeça. Percebi o silêncio no restaurante. De observador, passei a ser o observado. Eu observava incrédulo a surpresa que o dia me apresentava. Não disse seu nome, não perguntei. Eu não disse o meu e ela também não perguntou. Tirou lentamente o casaco e vestia apenas uma camiseta branca, regata, mostrando que além do sorriso, havia ali muito mais a mostrar. Ela não chegou a sentar e assim fomos à mesa do buffet fazer o prato juntos.

— A salada está bonita – disse ela, com a voz rouca que parecia querer me confundir. A carne não, tem muita gordura. Não entendo como as pessoas comem carne com salada. Um é frio, o outro é quente. Não está certo misturar.

Eu, que quase sempre só como carne com salada, misturados, fiz meu prato somente com alfaces e tomates. Fiquei em conflito por pensar se eu era assim tão influenciável ou se aquilo já era uma negociação e, como em todas as negociações, cedemos naquilo que nos é irrelevante.

Sentamos e pela primeira vez eu vi seus olhos. Não consegui identificar a cor. Um castanho claro, mas não muito definido. Uns riscos e manchas, uma coisa bonita, instigante. Eram, os olhos, aquilo que ela tinha de mais viva. Os olhos brilhavam. Não consegui vê-los muito, pois a dona daqueles olhos a tudo olhava, menos nos meus olhos. Até agora não sei se era uma inquietação ou uma fuga. Não sei, não importava, não importa...

Começamos a comer salada desinteressados na salada. O garçom perguntou a ela o que ela gostaria de beber.

— Que vinho você tem?
— Não sei, vou ver, dona.
— Não vê, não, rapaz, me traz uma taça do que você tiver.
— Não trabalhamos com taças, dona.
— Então me traz uma garrafa, por favor.

E, ao presenciar esse dialogo, me perturbei. E conversamos sobre superficialidades... “que dia lindo”, “a salada já foi melhor”, “a loja aqui do lado melhorou de qualidade”, coisas assim. E no meio das amenidades eu percebi que eu estava diante de uma mulher livre. Existem as mulheres que querem ser livres e existem as mulheres realmente livres. Aquela mulher sem nome na minha frente poderia se matar na minha frente por pura expressão de liberdade. Nada a prendia e nada a colocava ali. E eu me senti honrado por aquela presença inusitada.

Mas, no mesmo corpo onde nasce a honra, circula o sangue e fervem as emoções. Era, simplesmente, uma mulher linda sentada à minha frente. Como um presente. E no corpo onde circula o sangue e fervem as emoções, também circulam as emoções e ferve o sangue. E a isso se chama tesão. Dialogávamos como quem joga uma partida de tênis, frases rebatidas, idéias interrompidas, mas sem perder a direção. Jogo, jogo ativo, duro, jogo bom. Back to game – é boa a sensação de voltar ao jogo. E nas frases daquela mulher eu via um corpo todo voltado ao jogo, no movimento dos braços e cabelos, no sorrir, no calar. Querendo ganhar, conquistar, seduzir. Sedução é, sempre, o melhor do jogos. E eu sou jogador macaco velho nessa brincadeira. Tão macaco velho que sei a hora de sair, hora que não vai dar em nada. Também sei a hora em que é preciso insistir, que ainda há jogo. E, principalmente, sei quando estou jogando diante de alguém que joga melhor do que eu – o que era o caso – e que, nessa situação, perder é ganhar. É muito bom perder no jogo de seduzir pra alguém que joga melhor que você.

Aquela mulher que surgiu do nada era uma sedutora nata. Eu não tinha a menor chance, mas não podia deixar de brincar. O diálogo manteve-se cortes e discreto, apesar de toda tensão existente naquela conversa. Não eram usadas frases diretas, mas abusávamos das palavras com duplo sentido. Falávamos de tudo um pouco, ao mesmo tempo que falávamos de nada. Uma garrafa de vinho na hora do almoço e mais uma linda morena em um jogo de ganha-ganha realmente me deixou tonto. Já não a mais a escutava nem tinha noção do que eu respondia. Apenas a via na minha frente, vestida apenas com um salto alto e um sorriso largo. E aquela visão, mesmo na minha imaginação, era mais bonita que toda a beleza daquele dia.

— Preciso ir agora - disse ela muito de repente, quebrando o momento no qual eu terminava de despi-la do ultimo salto.

Pedi a conta e olhei o relógio. Eram quatro horas da tarde e voltar ao trabalho estava fora de cogitação. Minha idéia era despi-la de verdade e seus olhos pareciam implorar por isso.

— Vem comigo? - perguntei.
— É complicado - respondeu ela com um sorriso que discordava das suas palavras.

Vestiu o casaco virou as costas e saiu andando, passos firmes e decididos, em direção à praia, contra o vento frio, com os cabelos esvoaçantes. Olhou duas vezes para trás. A cena era linda de se ver naquele dia azul. Não fui atras. Sabia que não era pra ir, apesar da minha vontade enorme de ir.

Foi uma sexta diferente. Era um dia que não prometia nada. Justamente nesses dias é que nos surpreendemos. Uma presença inusitada, um vinho inesperado, um jogo bem jogado. Assim como veio, a bela mulher se foi. Deixou sua marca, levou a minha, gerou-se uma dívida, uma promessa não explicita, uma certeza de que, sim, será bom.

Tenho almoçado com freqüência no MAM. Mas os dias não estão tão belos quanto aquela sexta feira e não há sinal da mulher sem nome. Mas é certo que, cedo ou tarde, ela irá aparecer para brincar de me seduzir e cumprir a promessa que não foi feita. Um dia, o dia chega...


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os muros e a borboleta.

Ela era uma mulher linda. Olhos verdes d´água, verde mar de Ipanema no verão. Olhos vivos. Leves e harmônicos, os movimentos de seu corpo me hipnotizavam. E o sorriso? O sorriso era largo, sincero, penetrante e o riso, o riso era solto. Era linda aquela mulher. Mas, ao falar, sobre qualquer assunto, receita de bolos, astrofísica, metafísica do poder, deixava evidente que toda aquela beleza física não era nada perto da mulher interessante que aquele corpo guardava. Era inteligente, esperta, bem humorada. Seu belo corpo era um pequeno detalhe naquela linda mulher. Não era velha, pelo contrario, era uma jovem, uma jovem marcada por uma vida de experiências, boas e ruins, cicatrizes que a deixavam ainda mais bonita.

Era sim uma mulher linda. 

O que tinha de mais bonito nessa mulher era sua capacidade de sonhar. Sonhava dormindo, sonhava acordada, sonhava trabalhando. Não era avoada nem iludida, tinha os pés no chão, mas, ainda assim, dava asas aos seus sonhos e, sempre que a realidade permitia, corria e voava com eles. E se tivesse chance, se tivesse alguma chance, dava um jeito de colocar-los em prática. Sábia, sabia que eram aqueles seus maiores tesouros...

Eu a conheci assim, linda. E me apaixonei por ela no primeiro instante.  E ela me abriu as portas do seu mundo. Se entregou inteira, pois sabia que essa é a única maneira de se entregar. Me mostrou sua vida, seu coração, seus sonhos, seus medos, seus traumas, seus desejos. Ela se abriu inteira e, era, assim de perto, tão bonita quanto eu havia imaginado antes. 

Ela era a mulher mais linda que eu havia conhecido em minha vida. Era perfeita com suas imperfeições e, por isso, a mais perfeita. Ela, no pior dos dias – mau humor, TPM, cansada, insone -,  era ainda dona de um charme que só ela e eu a achava linda. Inteiramente linda.

Me achava um cara de sorte.

Eu nunca fui um homem de sonhos. Digo, de correr atrás dos sonhos. Sim, tenho os sonhos megalomaníacos, utópicos, dilatados, impossíveis, que na verdade são apenas difíceis e, por serem difíceis, morrem. Mantenho-os em segredo, segredo até de mim mesmo. Quase sempre me faltou tempo para correr atrás deles. Tempo ou coragem, sejamos sinceros. Há aqueles, menorezinhos, pra mim, e esses eu não sonho tanto, pois, em sendo possível, os realizo. Mas, o tempo... Sempre a questão do tempo esteve presente, como um problema, na minha vida. Nasci de sete meses, só pra dar um exemplo. Deveria chegar as 9:00 no trabalho, mas não chego antes das 10:15, outro exemplo. Mas sempre tive essa questão de tempo, de urgência. E também de pragmatismos. De buscar soluções, de resolver problemas. Sempre sufoquei meu lado lúdico por uma urgência de vida prática e sempre soube que eu não era feliz com isso. Me faltava alguma coisa. Desde sempre eu sabia.

E quando vi aquela mulher ali, linda, cultivando um jardim de sonhos e, incrível, colhendo-os, eu sabia que eu estaria completamente entregue. Queria aprender a lidar com sonhos e, quem iria saber, viver de sonhos. Queria aquela mulher inteira. Corpo, mente, futuros e sonhos.

Mas, sem perceber, e pra mim foi como se fosse de repente, eu a estava matando.

No inicio não percebi. Eram tantas coincidências, tantas, que em algum lugar há um livro, enorme, só com a listas das nossas coincidências. Nós mudamos muito, nascemos de cesária, nossos gostos combinam de forma mágica, temos a letra bem parecida e cinco letras no nome e quatro no sobrenome. Coincidências tolas, mas que, pra nós, eram deslumbrantes. Foi, sem sombra de dúvida, um grande encontro numa vida onde o que se tem de mais importante são os encontros. E no inicio não era apenas de coincidências que vivíamos. Havia, e isso sempre houve, sexo extraordinário. Nossos corpos se amavam e se desejavam de uma maneira tão pura e tão inteira que não havia lugar melhor do mundo pra se estar do que dentro daquela mulher. Felizmente, muito felizmente, isso nunca mudou nem acho que vá se perder...

O que não continua é que aquela mulher linda parou de sonhar. A mulher que era linda porque seus olhos brilhavam com os sonhos que buscava já não estava ali. Ela não percebeu, nem eu, que lentamente era construído muros em volta dela. Muros construídos com a minha objetividade, praticidade, experiência, ou melhor, com a minha tolice. Eu não percebi, mas, sim, aos poucos, eu colocava ali ao redor dela, tijolo por tijolo, algo que a deixaria presa. Como um pássaro, que é livre e nasceu pra voar, ela morreria ali.
Quando a encontrei eu fiquei cego de paixão. E cego, não percebi que, diante de algo tão importante, sublime e, sobretudo, inédito, era preciso desarmar-me de toda arrogância que eu tinha. Me julgava um cara experiente e quis, de alguma maneira, contar com aquela experiência... Tolo. Tolo e cego eu fui. Devia saber que, quando se vai ao encontro do novo, deve-se ir puro e, principalmente, aberto. Mas não, lá estava eu com minhas razões, minhas manias, minhas regras, minhas tesouras de podar sonhos que eu usava e estava sempre acostumado a usar em mim mesmo. Aquelas eram coisas que, por hábito, e por ter sempre carregado, estavam comigo. Aquelas eram coisas que eu realmente não precisava mais. Ou melhor, não queria mais ter. E foram essas coisas que, quase que imperceptivelmente, eu usei pra criar os muros em volta dela.

Mas o pior de todos os venenos era mesmo o ciúme. É preciso uma certa intimidade para que ele apareça. Eu achei que não ia ser o caso, que eu era maduro e que já tinha aprendido isso na vida, mas... Mas quando eu vi, estava tomado de ciúmes. Como o mundo inteiro não se apaixonaria por aquela mulher linda e maravilhosa, dona do sorriso mais doce e puro tesão. Era inconcebível crer que o mundo não a desejava. E eu, sem saber, como se houvesse de mim um duplo, um clone, um clone tomado de ciúmes, coloca cimentos e tijolos ao redor dela, nas portas da casa e a queria só pra mim. Sei que o ciúmes vem e vai. E quando vem, pode derrubar almas, pessoas, sonhos. Assim como ele precisa de intimidade para aparecer, precisa também de calma e sabedoria pra que ele se vá. Mas, mesmo quando se vai, deixa ele suas marcas.

Como, mas como eu não percebi? Foi ela que, um dia, olhou-se no espelho e não se reconheceu. Não reconhecia sua imagem, seus desejos, suas reticências. Aquelas reticências não eram dela, mas agora as usava como uma segunda pele. E, principalmente, não reconheceu os sonhos que estava sonhando... Aquela, segundo ela, não era ela. E, imediatamente, usando de toda sua sabedoria, ela se recolheu. Virou pupa.
Virou pupa para reconstruir suas asas e poder voar por além daqueles muros de verdades que não eram delas. Vai voar porque é essa sua natureza. Vai voar porque voando é feliz. 

Ah se eu tivesse percebido o muro que se erguia sem que eu soubesse. Seria eu o primeiro a quebrar com picaretas, com as mãos, com dentes aqueles tijolos. Seria o primeiro a abrir os portões, as janelas, a deixar correr o ar. Queria eu ter aprendido com ela, junto, a criar asas e não ter cortado as delas.

Quão tolo eu fui.

E agora, como tolo, cá estou, destruindo essa porra desse muro que eu não sei como eu fiz, enquanto ela, pupa, se transforma. Sei que dentro de uns dias, suas asas estarão fortes e que, mesmo que eu destrua hoje esse muro, ele ainda será visível pra ela e lá pro alto ela voará. Vai procurar novos ares, novos ninhos, nova vida. Mesmo que aqui seja bom como nunca havia sido, mesmo que agora seja tudo como ela sempre desejou. A moça linda se perdeu de mim.

Talvez eu a encontre num outro tempo, num outro momento, num sonho. Talvez ela venha me visitar num sonho, com suas asas de borboletas... Mas são apenas talvezes.

Cuidar de mim, dar tempo ao tempo, é o que resta. Resta seguir em frente, carregando na bagagem o que eu aprendi. Resta pensar em organizar essa força que é capaz de construir muros, casas, histórias e que, com a mesma rapidez que vêm, se vão. Resta admirar o que foi bonito e reconhecer o que foi bom.

Tempo ao tempo.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A queda


Apesar do sol forte, já alto no céu azul de poucas nuvens, a ausência completa de pessoas na rua denunciava que aquele seria um dia frio. Ele abriu a janela do quarto e parou por instantes, admirando a paisagem. Era um dia muito bonito de inverno. O vento que entrou congelou todo o quarto. Ele, nu, sentia prazer naquela sensação de mudança de temperatura. Já eram nove horas. Ele já estava atrasado. Mas pensou que, já que iria desperdiçar aquele lindo no escritório, poderia se dar ao luxo de chegar atrasado uma horinha apenas. Acendeu um cigarro e apoiou-se na janela. A vista daquele apartamento era deslumbrante. Do alto daquele décimo quarto andar, sem nada a sua frente, via uma selva de pedras por quilômetros que, àquela distância, lhe dava paz.

O vento não era forte, mas, de tão frio, parecia congelar a alma, os pelos, as paredes, o vidro e o mármore no qual apoiava seus braços, enquanto fumava seu cigarro. Era um vento silencioso e afiado e parecia entrar por dentro dos ossos. E, naquela manhã bonita, essa sensação era boa. Estava nu, mas se sentia, naquele frio mais pelado do que nunca. Era como ser o vento ultrapassasse toda a imagem que ele tinha de si e o abraço. Um abraço que era gelado e ao mesmo tempo era o abraço mais verdadeiro e profundo que recebia.

Vestia apenas um cigarro, que, no durar dessa sensação, era somente cinzas. Vestia também lágrimas, poucas, que corriam delicadamente sobre seu rosto, como um carinho, uma gentileza. E não eram lágrimas tristes. Apesar de chorar, sentia-se inexplicavelmente feliz. A mente estava vazia e sem perceber, acendeu outro cigarro. A fumaça dançava à sua frente como uma bailarina, doce e precisa, num ritmo lento e preciso. E estava ele, agora, sorrindo, de pé sobre a janela, para poder sentir no corpo e na alma toda aquela felicidade. Era ele, naquele momento, senhor do seu mundo, o senhor de tudo e, ao mesmo tempo, tão pequeno, tão insignificante na beleza do mundo. Admirava o que via e sentia e deixou-se dominar por essa admiração. Era, com ela, nela, poderoso.

Sem saber porque, pulou. Seu corpo caiu lento, quase parando. O vento continuava frio, mas sua mente agora era tomada por imagens da sua vida. Os andares passavam em câmera lenta, quase parando no ar.

Lembrou das cidades que morou, das casas que teve. Desde sua infância, sua vida sempre foi mudar. Queria um canto, mas sua inquietude, ou a inquietude da sua vida, estava sempre o deslocando para um novo lugar. Lembrou da casa de chão de barro, sua primeira memória, que já era da sua terceira casa, aos dois anos de idade. Lembrou dos brinquedos quebrados, mas que eram seus brinquedos e de como era bom ter qualquer brinquedo. Lembrou do jardim e do quintal que não tinha fim, com suas árvores e sombras e do barulho de água do rio que devia passar ali perto. Lembrou da época em que dormia com sua mãe, pois não havia camas, ou quartos, suficientes para ele ter seu próprio espaço. As imagens vinham claras, nítidas, com detalhes que não se lembrava de ter guardado. Flores nos vasos, paredes descascadas, os tons de verdes no quintal. Eram detalhes e ele parecia perder horas conhecendo, de novo, aquele lugar. Lembrou da casa da avó e de como era difícil morar lá, da casa dos primos e de como era ou muito bom ou muito ruim morar lá, dependendo se os primos brincavam ou batiam nele, caçula que era. Lembrou da primeira televisão, preto e branco, numa casa alugada e de móveis alugados. Lembrou da primeira vez que andou de bicicleta, sem rodinhas, na casa do tio. Lembrou de tantas coisas boas durante aquele primeiro andar que caiu. Lembrou do primeiro beijo, do primeiro fora, da primeira trepada. Lembrou do último beijo, do último fora, da última trepada. Se esforçou para lembrar do que tinha acontecido no meio e riu, imaginando que teria que ter pulado de um prédio de 1000 andares para poder repassar a sua vida inteira. Lembrou do primeiro emprego, da primeira demissão, lembrou de amigos que queria ter tido por mais tempo, dos amigos que tinha e que não via fazia tempo. Lembrou e procurou, nessa lembrança, dar um abraço em cada um deles. Lembrou do pai e da mãe e da única vez que os viu juntos. Lembrou das suas vitórias e suas derrotas. Lembrou de sua vida inteira, ou pelo menos daquilo que lembrou de lembrar. E, caindo, sorria. Sabia que aquela vida era cheia de coisas, cheia de experiências, boas e ruins, mas que, no saldo, era boa, muito boa.

E continuava a cair, lentamente, calmamente, com se nem caindo estivesse. Chegou a cansar-se de suas lembranças. Queria de volta a sensação da janela, há pouco, onde não havia nada em sua mente, exceto a felicidade inexplicável que sentia em não sentir nada. Um vazio que não era oco, ao contrário, o preenchia por completo. Sentiu de novo em seus ossos aquele vento frio e sua mente esvaziando. A felicidade o preenchia e, sem saber porque, percebeu que não caia e, sim, voava. E, como uma bolinha sabão, uma pluma, flutuava nos braços do vento, que, como um pai, o levava no colo. Estava no céu e de lá a vista era ainda mais bonita do que a da janela do seu quarto.

Acendeu um cigarro novamente. Enquanto tragava, fechou os olhos. Não tinha o controle de onde ia, de onde estava, era levado e queria sentir isso na escuridão. Ficou de olhos fechados por algum tempo, não soube o quanto e quando abriu, estava em sua cama, nu, com o cigarro acesso nas mãos. Eram 9:00h, ele já estava atrasado, mas decidiu não ir trabalhar. Não naquele dia, nem no seguinte. E estava imensamente feliz sem saber porque... Estava frio, com um vento gostoso.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Eram feitos de suor e sonhos

Era óbvio, explícito, claro e evidente. Era certo, previsível, uma verdade desesperada e estridente. Era uma questão de tempo. O que não se sabia era quando aconteceria.
 
Eram intensos, no amor e na loucura, na raiva e na doçura. Amavam-se, disso não havia dúvidas, por mais que fossem evidentes as diferenças, os atritos, os tapas e as mágoas. Não existia, para eles, amor sem mágoa. Era implícito que, amando, haveria mágoas. Odiavam-se, não como inimigos, mas como verdades antagônicas em um embate, como se fossem, um ao outro, o reflexo perfeito das imperfeições que teimavam em esconder. Eram feitos de suor e sonhos, mais sonhos que suor, e às vezes feitos de sede e fogo. Não eram, não sabia ser, não podiam ser, indiferentes um ao outro. Contagiavam-se e se contaminavam de emoções, às vezes na mesma direção, às vezes não. A felicidade de um podia causar no outro felicidade maior ou um ódio gigantesco, dependendo das razões, das causas, do envolvimento. Amavam deixar o outro feliz, ser o motivo e a razão, mas morriam, se desfaziam, quando não eram. Era assim que se traiam, sendo felizes com o resto da vida que não fossem eles em eles mesmos.

Poucos sabiam, de fora, como eles sobreviviam aquela relação. E aquele casal sabia viver se fosse assim, na base do exagero, beirando o desespero. Como se só houvesse esperança na desesperança. Completavam-se e se bastavam e viviam aquela simbiose doentia.


Era evidente o que aconteceria, todos percebiam. Passaram-se anos, coisas mudaram, o tempo era outro, pessoas vieram e se foram, mas, na essência, tudo estabelecido naquelas regras permanecia. Eram feitos de pedra e insistência. E, um dia, aconteceu.


Ela entrou em casa, falante, vibrante, entusiasmada com as novidades do seu dia, querendo que ele fosse sua platéia e lhe dedicasse a atenção devida. Não eram grandes novidades, ou melhor, não se soube se eram ou não. Nunca se soube. Ele, pela primeira vez em todos aqueles anos não conseguiu ter qualquer reação às palavras e ao sentimento da mulher. Enquanto ela falava, ele ficava inerte, estático a sua frente, vendo-a falar, sem de fato escutar ou compreender qualquer palavra. Não sorriu. Não rosnou. Nem sequer mexeu a sobrancelha. Via a mulher gesticulando virtuosamente, falando e falando e simplesmente não a reconheceu. Era como se nunca a tivesse conhecido, como se viesse a jogar um jogo por longo tempo e, bem antes do fim, esquecesse as regras e perdesse todo o interesse. Ele olhava a mulher e se perguntava quem era ela. E quem era ele.


Ela demorou a perceber o que estava acontecendo e, bem verdade, nunca chegou de fato a compreender aquela cena. Soube, apenas, que algo acontecia ali naquele momento. Tentou as coisas práticas como, você está bem, você está com fome, você está doente, aconteceu alguma coisa, você tem uma amante, mas o homem se bastava em lhe responder diretamente as perguntas, sem dar chance a mulher de entender a questão. Ele também não entendia. Sabia exatamente que, desde que ela havia adentrado aquele apartamento, não a amava mais, mas não sabia a razão e ele precisava de uma razão para falar. E, pela primeira vez naquela turbulenta relação, se fez o silêncio. Um silêncio frio e escuro, sentimentos que ambos, desde sempre, nunca haviam sentido.


O silêncio fez-se por dias. Tantos que não se sabe ao certo quantos foram.

Ela precisou de tempo para saber o que acontecia. Apegou-se às questões práticas como trabalhar, comprar comida, cozinhar e, em seu desespero, gritava ou gargalhava com as plantas, falava com as paredes, chorava no chuveiro. Exercitava sua loucura sem seu parceiro e não conseguia compartilhar com ele o mesmo olhar vazio ou mesmo aquele beijo frio. Imaginava coisas mil, seguiu-o até o trabalho, contratou detetive, sugeriu que entrassem em uma academia, queria mudar algo que havia acabado de mudar, mas no fundo, no fundo, queria ela que fosse tudo como antes. Ele, mergulhado em seu silêncio, buscava explicações para coisas inexplicáveis e nada queria e observava-a, com a reticência daqueles que deixam de amar, perplexo com as loucuras daquela mulher.

Aconteceu o que todos achavam que ia acontecer. O que era, desde sempre, evidente e obvio. Sabia o mundo que eles não podiam ser felizes sendo como eram e que, um dos dois, em algum tempo, perceberia o tamanho da loucura em que estavam mergulhados e sairia dessa.


O que não se sabia era o que aconteceria depois.


Ele saiu de casa, isso era óbvio, mas não se sabe a onde ele foi nem onde está agora. Ela, depois de certo tempo, após muito chorar, emagrecer e envelhecer, decidiu viajar em suas férias e não voltou. Estão, ambos, desaparecidos.


Dizem aqueles, parte dos mesmos que sabiam que algo aconteceria, que ela o matou. Dizem com detalhes, sabe-se lá como, e falam que ela o chamou em casa tentando seduzi-lo e dado as negativas dele, o esfaqueou no pescoço, deixando todo sangue escorrer pelo chão da sala enquanto lhe beijava a boca. Outros discordam em parte, dizem que ela não teria a coragem de usar uma faca e que o teria envenenado logo que ele entrou na casa. Desses que dizem, concordam todos que ela ainda está, louca, naquela casa e preserva o corpo como se o homem ainda estivesse vivo. Esses acreditam ouvir os gritos dela, nas horas altas da madrugada.


Há outros que são capazes de jurar que ela nunca o mataria. Mas não dizem o mesmo dele e contam que ele a teria sufocado, bêbado, até a morte num desses encontros que certamente faziam para seus corpos matarem a saudade. Dizem ainda que ela está enterrada dentro de alguma parede daquele apartamento, que até hoje continua fechado.


Ainda outros dizem que morreram os dois. Que, sim, estavam todos certos, aqueles que diziam ser impossível ser feliz vivendo daquela maneira e o casal, que achava que só era possível viver assim. Que morreram ambos em silêncio, um ao lado do outro, um logo após o outro e que só assim tiveram paz.


E, finalmente, há quem diga, e são esses os mais românticos, que o homem e a mulher continuam vivos e que se amam do jeito que podem e que aprenderam com o silêncio uma nova maneira de seres felizes e agora o são mais do que nunca. Sabiam que aquele desamor era só a necessidade de sossego e que a paixão nunca havia abandonado aquele casal. Eles sumiram somente porque não agüentavam mais o mundo dizendo a toda hora e a todo o momento algo iria acontecer e sabiam que não precisavam explicar isso a ninguém.


Mas o que de fato aconteceu, não se sabe. Eles sumiram e há só o que dizem os outros.