Ele tinha a mania de se apaixonar sinceramente. E rapidamente. Também
tinha a mania de se desapaixonar francamente. Também rapidamente. Era
intenso.
Ele achava que lhe faltava tempo, mas na verdade lhe faltava
paciência. Não tinha saco para ver um amor nascer, crescer e ser
forte. Isso requer calma e paciência. Ele não tinha nenhum nem outro.
Ele tinha mania de construir amores, usando a lógica e conveniência ou
os materiais que dispunha. Seus amores nasciam da noite pro dia.
Morriam da mesma forma.
Ele queria um amor pronto. De microondas. Hot pocket love. Mas com
sabor de verdade. Sim, ele queria muito. Era exigente. Ao menos com
isso. Ele era intenso. Amava intensamente a primeiro sorriso. Amava
uma flor, se uma flor visse. Amava um bêbado, se a bebida fosse boa e
se por um instante, houvesse ali poesia. Mas em dois instantes,
esquecia. Do intenso amor que sentia e cultivava, guardava apenas um
vago sorriso. Um sorriso que sempre carregava no bolso. Um sorriso
sincero e efêmero. Sem calma e sem paciência. Só sabia amar assim. Por
instantes. Efemeramente.
Ia assim, desgovernado, colecionando amores de ocasião, aqueles de
promoção, sem rumo nem direção. Ele ia. Ele tinha mania de se
apaixonar. Não admitia a idéia de uma vida sem paixão. E não
considerava a hipótese de ter uma paixãozinha, de uma coisinha à toa.
Ele tinha mania de revoluções. De que o amor seria uma revolução. Algo
incrível. E sempre era. Efemeramente incrível. Incrivelmente efêmero.
Um dia ele parou. Estava cansado. E foi a primeira vez que ele parou.
Sem saber onde estava, tampouco aonde estava indo, quis saber de onde
veio e olhou pra trás. E no caminho, nada reconheceu senão o cansaço.
Carregava com ele pedaços de histórias e memórias que não eram dele. E
esse era um saco pesado como um saco de tijolos. Estava cansado e já
não entendia porque carregava aquele saco. Deixou os tijolos pra trás
e se deitou no chão a olhar o céu. Adormeceu.
Sonhou com sorrisos sem rosto.
Acordou ainda cansado e ligeiramente feliz, contagiado pelos sorrisos
que viu. Pensou em continuar andando, sem saber aonde ir, mas ali lhe
parecia tão bom que ali mesmo ficou. Sabe que lhe faz falta alguns
pedaços que perdeu entre os amores que deixou. Sabe que caminhar na
pressa de amar cansa. Sabe que algo mudou naquele parar e adormecer.
De tanto andar sem rumo, aprendeu calma. Ainda lhe falta paciência.
Pensou em plantar uma árvore e esperar ela crescer para lhe dar
sombra. Pensou que poderia chover. Pensou que até então não amara
ninguém, que não sabia o que era amor e que nada naquele caminho havia
existido. Havia apenas sorrisos sem rostos... Pensou que poderia ficar
triste. Não amar ninguém é muito triste. Mas, passados dois segundos
de susto, pecebeu-se mudando e sorriu. Sorriu de um sorriso tão
sincero que nem sabia que era seu. Pensou que coisas novas poderiam
acontecer. Como talvez aprender a ser paciente e amar alguém. tudo era
possível.
Estava feliz. Sentia-se livre. Andou até uma sombra e decidiu esperar.
Havia perdido muito tempo na vida, mas não havia pressa. E, por não
haver pressa, mais feliz ficou.
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quinta-feira, 10 de novembro de 2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Sabe um dia estranho, tipo hoje?
Nada de novo no front, exceto uma estranheza que me
acompanha desde essa manhã. Sabe quando você desconfia que as coisas não estejam
no mesmo lugar de antes e de repente percebe que é você que não está no mesmo
lugar? Parece que tá rolando um filtro, tipo instagram, nas cenas ao meu redor.
Num instante tem supersaturação de tons que, de repente, pisco o olho, vira uma
cena em sépia. Parece a sensação de quem acabou de trocar de óculos, mudou o
grau, e passa a enxergar detalhes que antes já não via e deixa de enxergar
coisas que lhe pareciam óbvias. Então, acordei meio assim. Com grau novo.
E vendo as coisas assim, estranhas, com um astigmatismo emocional,
sem saber os limites das coisas e mesmo sem saber ao certo suas cores, tudo,
absolutamente tudo, me parece estranho. Estranho nunca soou tão bem e tão clara
para uma situação. Poderia ser TPM. Tem mulheres que acham o mundo estranho
durante a TPM. Mas acho que não me cabe TPM, se bem que nesse nessa sensação
esquisita toda eu não me espantaria. Enfim, até o que escrevo parece estranho
pra mim. Não que não seja, sempre, pra você que lê, mas, pra mim é estranho me
achar estranho.
Na prática é mais ou menos uma hipersensibilidade pra
algumas coisas e uma indiferença para outras, mas meio assim misturado, sem
muita definição ou fronteiras. E eu, que faço sempre um esforço gigante pra ter
foco nas coisas, começo a divagar. Chega uma hora que é melhor parar de brigar
e se entregar ao inevitável. Hoje não tá rolando foco. Nem senso prático.
Está muito mais divertido devanear na visão singular em que
vejo o mundo hoje. Ver o mundo de um
jeito diferente pode ser algo perigoso. Pode ser que algumas verdades morram ou
desapareçam, pode ser que surjam outras, não sei. Sei que está tudo muito
estranho e sem sentido no mundo e é perigoso quando vemos as coisas assim.
Vamos esperar passar e vejamos onde é que eu vou parar...
E olha que eu nem bebi.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Série Diálogos - "A gente se acostuma..."
Ela: Assisti
ontem o Abujamra recitando Marina Colasanti. A gente se acostuma... eu não quero me acostumar.
Eu: Tem
coisas que a gente pode se acostumar, tem coisas que não... Não trabalho com
regras.
Ela: Isso é
bom. Ou melhor, seria bom, se fosse verdade. Regras são para serem quebradas!
Mas não acredito em você. Acho que você é uma fraude. Você trabalha com regras,
regras diferentes, suas regras, mas eu gosto disso. E gosto das falsas verdades
que você fala. Você é cheio das falsas verdades. Elas não são mentiras, mas são
falsas verdades. E eu não quero me acostumar, já disse.
Eu: Hum...
Pode ser. Normalmente eu ia ficar puto ouvindo isso, mas vindo de você, agora, não tenho como dizer que você não esteja certa.
Ela: Eu sei. Eu sempre estou. Você sabe...
Eu: Falando em verdade, a verdade é que eu acho um elogio quando você percebe que as falsas verdades que eu digo não são mentira. Só os inteligentes, e são poucos, percebem isso. Eu sou uma fraude e me orgulho disso. Sempre achei maneiro cagar regra sobre coisas que eu realmente não me importo.
Ela: Vcoê fala pra caralho e não diz nada...
Eu: Mas é... O mundo inteiro é uma mentira e eu me considero uma mentira sincera. Ou será que eu estou mentindo pra mim? A verdade é que eu só não gosto do generalismo. Ainda mais quando sou eu que faço, mas o mundo inteiro é uma mentira. Mas, se é pra mentir, e todo mundo mente, aprendi isso vendo House, que seja sobre coisas diferentes.Um mentira inédita demora mais a ser descoberta.
Ela: Eu sei. Eu sempre estou. Você sabe...
Eu: Falando em verdade, a verdade é que eu acho um elogio quando você percebe que as falsas verdades que eu digo não são mentira. Só os inteligentes, e são poucos, percebem isso. Eu sou uma fraude e me orgulho disso. Sempre achei maneiro cagar regra sobre coisas que eu realmente não me importo.
Ela: Vcoê fala pra caralho e não diz nada...
Eu: Mas é... O mundo inteiro é uma mentira e eu me considero uma mentira sincera. Ou será que eu estou mentindo pra mim? A verdade é que eu só não gosto do generalismo. Ainda mais quando sou eu que faço, mas o mundo inteiro é uma mentira. Mas, se é pra mentir, e todo mundo mente, aprendi isso vendo House, que seja sobre coisas diferentes.Um mentira inédita demora mais a ser descoberta.
Ela: Ou não... Fodam-se as suas mentiras. Você
fala demais. É prolixo demais. Tem gente que te acha chato demais... As vezes
eu acho... Mas as vezes é bom entrar nessas viagens suas, principalmente para as pessoinhas de cabeça vazia... Mas esse seu blablabla não
levam ninguém a lugar nenhum. Você sabe disso, né?
Eu: Não
leva? Depende de aonde você quer ir. Tem uma ou outra que eu levo. Mas, não tenho a intenção de levar ninguém a
nenhum lugar...
Ela: To com
uma vontade imensa de viajar... adoro aquela sensação de sair, de conhecer o
novo, de não saber o que pode acontecer, mas que venha o que tiver que vir. Vontade
de praia do nordeste, moqueca de peixe, rede na sombra do coqueiro e água de
coco gelada.
Eu: Viaje.
Viajar é bom. Mas isso assim parece uma fuga. Você está fugindo?
Ela: Não
sei. Você está?
Eu: Talvez.
Fugir é diferente de buscar, né? Mas as vezes pode ser meio parecido. Achava
que eu estava fugindo de algumas coisas, mas de vez em quando me percebo
buscando outras. E tem vezes que eu me vejo buscando algumas coisas quando na
verdade estou fugindo de outras. Tenho dificuldade de saber onde estou. E acho
um saco ficar me analisando de instante em instante... Pra isso eu pago a
análise...
Ela: Eu
queria viajar. Preciso de novos ares. Buscar algo ou fugir disso aqui. Estou
cansada...
Eu: Viajar
é também uma expressão de solidão. Nada mais solitário que um viajante...
Ela: É verdade,
mas também depende da viajem. Viajar acompanhado é bom demais! Eu gosto.
Eu: Mesmo viajar \acompanhado.
Há, quando a gente muda de cenário de fundo, muda de lugar, fica longe de casa,
uma solidão que nos acompanha...
Ela: Ah,
mas essa solidão nos acompanha do nascimento à morte, viajando ou não.
Eu: Sim,
mas uma certa dose de rotina nos distrai dessa solidão. A mesma rotina que, em
outras questões, nos sufoca. É preciso, sempre e para tudo, buscar o
equilibrio. Mas, definir e saber onde está esse equilibrio é que são elas. O
equilibrio é uma utopia.
Ela: Você e
suas falsas verdades... Chato. Só Buda achou o equilibrio
Eu: Cada um
tem o seu. Ou ninguém o tem... Buda sempre me lmebra bunda. O equilibrio da bunda é o cu? Pronto, acabou a
seriedade. Deixa eu ver sua bunda? Gosto dela. Ela gosta de mim.
Ela: Gosto de você gostar da minha bunda. E gosto de pensar que não é só dela, mesmo não tendo muita certeza disso. Mas, das minhas preocupações agora, essa é a menor. E, sei lá como, eu até gosto de você.
Gosto até da sua seriedade equilibrada com essas besteiras, se não tudo fica
muito pesado e chato. Alias, você é chato e é pesado e eu até gosto de você.
Isso é impressionante. Acho que sou eu que preciso de terapia.
Eu: Acho
que você precisa de sexo. Mais um pouquinho.
Ela: Sempre
preciso. Tem vida em você ainda? Qualquer coisa eu me viro...
Eu: Quase.
To me recuperando, mas já dá pra começar a brincar. Tem coisas que a gente se
acostuma. Me manda o link do Abujamra?
Ela:
Depois... Vê cá agora... Deixa de ser chato e para de falar. Você precisa
aprender a calar a boca de vez em quando. Me come de novo?
Eu: Como.
Mas você falou que não quer ser acostumar.
Ela: Falei?
Não lembro. Me come?
sábado, 2 de julho de 2011
Sobre seguir em frente
Ele teria todos os motivos para estar triste. Mas não está. Foram grandes perdas. E perdas atraem perda. Mas, como sempre, tudo é uma questão de perspectiva. Ao perde-la, encontrou-se. Ao perde-la, percebeu que nunca a teve. Ao perde-la, soube que nunca a teria. O verbo ter não se encaixa ao que tiveram. Não se tiveram. Houve, isso sim, um grande encontro, que, prematuramente, se desencaminhou. E isso é natural de todos os encontros. É nisso que está a sua beleza. A certeza da temporalidade do encontro. Como a vida, tudo tem um inicio, meio e fim. E quase sempre sofremos mais pelo fim. Há uma dor pela perda daquilo que houve no inicio e no meio. Mas, voltando a ele, ao perceber que a dor do fim é um desrespeito pela beleza do encontro, ele percebeu que era preciso ver, sentir, reconhecer o tanto de bom que houve naquele encontro. E, por isso, não se deixa estar triste. Houve muito de belo, muito de bom, muito de amor. E não é por que houve o desencontro que houve o fim do belo, do bom e do amor. Houve o que houve, o que pôde haver. E não há o que lamentar. Há que se seguir em frente, há que se sorrir, há que se aprender e se orgulhar. É agora guardar na memória os sorrisos, os olhares, os beijos, o suor, as idéias, as palavras, o carinho, guardar com amor tudo o que houve de bom e respeitar o tempo das coisas. Jogar fora o que foi desnecessário, o que pesou e que não lhe serve. Pensar sobre o que doeu, mas lidar com a dor sem medo, encará-la como quem olha o professor e aprender. Enfim, seguir em frente. Ele teria todos os motivos para estar triste, mas não está. No desencontro daquele encontro, encontrou-se e, por isso, será eternamente grato pelo o que aconteceu.
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