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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Gritos e Silêncios

Olhava fixamente para o espelho. Era um espelho de corpo inteiro. Era um espelho liso e grande em uma pequena sala quase vazia e que estava ali para dar a impressão de um espaço maior. Olhava intrigado para seus movimentos invertidos. Olhava fixamente para o espelho. Olhava-se, olhos nos olhos, e seus olhos, verdes escuro, estavam vermelhos. Queria não mais beber. E queria nunca mais chorar. 

Fazia três meses que bebia e chorava, diariamente. Fazia três meses que não saia de casa, exceto para beber e para chorar. Comer, eventualmente. Fazia três meses que matara sua esposa. Fora um acidente. Sim, houve um briga, sim, eles discutiram, mas ele só queria que ela parasse de gritar. Gritar com ele. Que ao menos Lavínia gritasse com as paredes, com as plantas, com outros, com o espelho. Mas não com ele. Ele não agüentava mais seus gritos. Lavínia gritava com ele fazia um tempo e ele sempre pedia para ela parar. Dizia que ela podia dizer o que quisesse, que podia lhe xingar, lhe maldizer, lhe amaldiçoar, mas, gritar, por favor, ele não agüentava. E, naquele dia, três meses atrás, os gritos dela lhe pareceram insuportáveis. Ele só queria que ela se calasse.

Ele olhava seu corpo pelo espelho. Ele costumava ser grande, corpulento, alto, largo, mas o que ele via era a imagem de um flagelo, um homem pequeno, sujo, sórdido, de uma feiúra obscena. Tinha as mãos grandes, largas, cheia de veias e pequenas cicatrizes, marcas. Tinha dedos grossos. Três dias depois que a matara, as marcas destes dedos eram como duas luvas pretas no pescoço de Lavínia. Pensou apertar seu pescoço com a mesma força do que quando faziam sexo e ele a deixava sem ar, fazendo-a gozar logo assim que a soltava. Era comum aos dois a tal da asfixia erótica. Era raro fazê-la perder a consciência enquanto transavam, mas naquele dia talvez, ele não lembra, talvez ele tenha apertado um pouco mais. Ele não lembra. 

Ele que assim que pegou no pescoço de Lavínia, ela parou de gritar. Fez um silêncio que há muito não ouvia. Um silêncio que lhe acompanha até hoje. Um som de paz. Ele lembra que seus olhos verdes ficaram abertos durante todo aquele momento. Não piscaram nenhuma vez. Eram lindos seus olhos verdes. Duas piscinas. Olhos verde mar, mais claros que os seus. Era difícil não ser hipnotizado por aqueles olhos. E naquele silêncio, era lindo vê-los. Ele apertou o pescoço de Lavínia achando-a a mais linda das mulheres. Como a amava. Naquele silencio e paz, diante de tanta beleza, ele teve a certeza de que a amava e de que nunca havia amado tanto uma pessoa. Era ali, prestes a se tornar só seu corpo, a mais belas das mulheres. Ela era um anjo. E ele queria amá-la, assim, angelicamente, para sempre. Naquele silêncio e paz, diante de um anjo, ele estava feliz.

Só percebeu que a matara quando aqueles olhos lindos e verdes perderam o brilho, ganharam uma tonalidade cinza. Soltou seu pescoço com dores na mão, de tanto tempo, não sabe o quanto, contemplando os olhos da esposa e apreciando o silêncio. Ele não a queria morta, mas seu primeiro pensamento era de que nunca a vira tão bonita. 

Lavínia era uma mulher vil, oportunista, maquiavélica e linda. Era mais linda que todas as mulheres e era também a mais sedutora delas. Quando ele já não a servia, passou a destratá-lo e, pior, a gritar com ele. Gritava quando brigava, gritava quando falava, gritava quando sorria, gritava até quando dormia. A todo momento, ela gritava com ele. Se havia algo que dava prazer em Lavínia nos sues últimos tempos, era gritar com ele. Ela gritava e em seguida ria. Caia na gargalhada ao vê-lo desesperado e incomodado com seus gritos. Por muito ele aturou os destratos, não se importava com os xingamentos, mas os gritos ele nunca suportou. Ele sempre pedia a ela para parar e ela nunca parava. Até que parou para sempre. Mas mesmo vil, Lavínia não merecia uma morte assim.

Seu corpo foi jogado ao mar quase uma semana depois de sua morte. O álibi que ele dera à polícia era fraco, mas a policia não suspeitou dele. A família dela não acredita no desaparecimento e vê o isolamento do marido como uma profunda depressão pela perda da mulher. Eles sabem que ele a amava muito e que nunca a mataria. 

Mas ele a matou e chora todo dia pela sua morte. E agora olha para o espelho, vendo a figura decrépita que se tornou. A imagem refletida no espelho já não era a sua. E a imagem do espelho já não era mesmo. A imagem do espelho ria. De inicio, ria de canto de boca, um pequeno sorriso, que se transformou lentamente em um riso acido, seguido por um riso histérico. Histérico e satisfeito. A imagem a sua frente já não era sua. Seu reflexo era forte como sempre fora. E ria com uma satisfação primitiva e gutural, um riso alto. Ria com os olhos vermelhos, vivos, com uma gargalhada frenética a mostrar todos os dentes. E os dentes eram grandes, a boca era grande, era, a imagem histérica de si, grande e assustador.
Ele, que olhava a tudo com espanto, teve medo da sua imagem. Aquele homem que ria e o assustava era o mesmo que não agüentou ser maltratado pela a esposa. Era ele, a imagem e não ele, quem via, o assassino. Ele disse, assustado e quase sem voz: “Assassino...”

E a imagem, sem parar de rir, lhe respondeu: “Eu te libertei daquela vagabunda! Você é livre! E agora eu quero viver!!”

E ele então deu um soco no espelho, quebrando-o em pedaços que caíram ao chão. Pedaços que ainda refletiam sua imagem e essa imagem, estilhaçada, gargalhava ainda mais, como se o som dos mil pedaços se amplificasse por mil vezes. E a imagem do espelho quebrado, entre gargalhadas e risos, começou a falar “O assassino é você, o assassino é você”.

E começou falando baixinho, bem baixinho e foi aumentando a voz, pouco a pouco. Ele, o homem, pisoteava os cacos de vidro no espelho, mas, quanto mais pedaços ele criava, mais altas eram as gargalhadas e as palavras que ele falava. E as palavras, altas, agora eram gritos, gritos, gritos...

E ele, quase já em prantos, suplicou “Não grite comigo, por favor, não grite comigo”, no que os gritos ganharam mais força... “O assassino é você!!! O assassino é você!!!”. 

Com um pedaço pontiagudo de vidro em cada mão, ele lentamente e com toda sua força golpeou os próprios ouvidos, alternando os lados, uma, duas, três, quatro vezes e mais, até cair no chão. Fez-se novamente o silencio e a paz. E era a maior paz do mundo. E naquele silencio ele sorriu e achou bonito o vermelho de sue sangue refletido em mil pedaços. Em um certo momento, sentiu-se cansado e fechou os olhos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Série Diálogos - "A gente se acostuma..."


Ela: Assisti ontem o Abujamra recitando Marina Colasanti.  A gente se acostuma... eu não quero me acostumar.

Eu:  Tem coisas que a gente pode se acostumar, tem coisas que não... Não trabalho com regras.

Ela: Isso é bom. Ou melhor, seria bom, se fosse verdade. Regras são para serem quebradas! Mas não acredito em você. Acho que você é uma fraude. Você trabalha com regras, regras diferentes, suas regras, mas eu gosto disso. E gosto das falsas verdades que você fala. Você é cheio das falsas verdades. Elas não são mentiras, mas são falsas verdades. E eu não quero me acostumar, já disse.

Eu: Hum... Pode ser. Normalmente eu ia ficar puto ouvindo isso, mas vindo de você, agora, não tenho como dizer que você não esteja certa.

Ela: Eu sei. Eu sempre estou. Você sabe...

Eu: Falando em verdade, a verdade é que eu acho um elogio quando você percebe que as falsas verdades que eu digo não são mentira. Só os inteligentes, e são poucos, percebem isso. Eu sou uma fraude e me orgulho disso. Sempre achei maneiro cagar regra sobre coisas que eu realmente não me importo. 

Ela: Vcoê fala pra caralho e não diz nada... 

Eu: Mas é... O mundo inteiro é uma mentira e eu me considero uma mentira sincera.  Ou será que eu estou mentindo pra mim? A verdade é que eu só não gosto do generalismo. Ainda mais quando sou eu que faço, mas o mundo inteiro é uma mentira. Mas, se é pra mentir, e todo mundo mente, aprendi isso vendo House, que seja sobre coisas diferentes.Um mentira inédita demora mais a ser descoberta. 

Ela: Ou não... Fodam-se as suas mentiras. Você fala demais. É prolixo demais. Tem gente que te acha chato demais... As vezes eu acho... Mas as vezes é bom entrar nessas viagens suas, principalmente para as pessoinhas de cabeça vazia... Mas esse seu blablabla não levam ninguém a lugar nenhum. Você sabe disso, né?

Eu: Não leva? Depende de aonde você quer ir. Tem uma ou outra que eu levo. Mas, não tenho a intenção de levar ninguém a nenhum lugar...

Ela: To com uma vontade imensa de viajar... adoro aquela sensação de sair, de conhecer o novo, de não saber o que pode acontecer, mas que venha o que tiver que vir. Vontade de praia do nordeste, moqueca de peixe, rede na sombra do coqueiro e água de coco gelada.

Eu: Viaje. Viajar é bom. Mas isso assim parece uma fuga. Você está fugindo?

Ela: Não sei. Você está?

Eu: Talvez. Fugir é diferente de buscar, né? Mas as vezes pode ser meio parecido. Achava que eu estava fugindo de algumas coisas, mas de vez em quando me percebo buscando outras. E tem vezes que eu me vejo buscando algumas coisas quando na verdade estou fugindo de outras. Tenho dificuldade de saber onde estou. E acho um saco ficar me analisando de instante em instante... Pra isso eu pago a análise...

Ela: Eu queria viajar. Preciso de novos ares. Buscar algo ou fugir disso aqui. Estou cansada...

Eu: Viajar é também uma expressão de solidão. Nada mais solitário que um viajante...

Ela: É verdade, mas também depende da viajem. Viajar acompanhado é bom demais! Eu gosto.

Eu: Mesmo viajar \acompanhado. Há, quando a gente muda de cenário de fundo, muda de lugar, fica longe de casa, uma solidão que nos acompanha...

Ela: Ah, mas essa solidão nos acompanha do nascimento à morte, viajando ou não.

Eu: Sim, mas uma certa dose de rotina nos distrai dessa solidão. A mesma rotina que, em outras questões, nos sufoca. É preciso, sempre e para tudo, buscar o equilibrio. Mas, definir e saber onde está esse equilibrio é que são elas. O equilibrio é uma utopia.

Ela: Você e suas falsas verdades... Chato. Só Buda achou o equilibrio

Eu: Cada um tem o seu. Ou ninguém o tem... Buda sempre me lmebra bunda. O equilibrio da bunda é o cu? Pronto, acabou a seriedade. Deixa eu ver sua bunda? Gosto dela. Ela gosta de mim.

Ela: Gosto de você gostar da minha bunda. E gosto de pensar que não é só dela, mesmo não tendo muita certeza disso. Mas, das minhas preocupações agora, essa é a menor. E, sei lá como, eu até gosto de você. Gosto até da sua seriedade equilibrada com essas besteiras, se não tudo fica muito pesado e chato. Alias, você é chato e é pesado e eu até gosto de você. Isso é impressionante. Acho que sou eu que preciso de terapia.

Eu: Acho que você precisa de sexo. Mais um pouquinho.

Ela: Sempre preciso. Tem vida em você ainda? Qualquer coisa eu me viro...

Eu: Quase. To me recuperando, mas já dá pra começar a brincar. Tem coisas que a gente se acostuma. Me manda o link do Abujamra?

Ela: Depois... Vê cá agora... Deixa de ser chato e para de falar. Você precisa aprender a calar a boca de vez em quando. Me come de novo?

Eu: Como. Mas você falou que não quer ser acostumar.

Ela: Falei? Não lembro. Me come?


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O dia seguinte.


(Não sei se devia avisar, mas essa é a continuação de "O dia não prometia nada, mas...")

Sábado. Acordei às 6:30h da manhã. Sempre tenho dificuldades em acordar cedo. Ou para levantar cedo. Acho que acordar, de verdade, requer que a mente e os reflexos estejam despertos. Não basta abrir os olhos.

Invariavelmente acordo as sete, às seis da manhã, mesmo com o despertador colocado para as oito. E entre o acordar e o levantar parece haver uma eternidade. São sempre infinitas as possibilidades. Possibilidades que giram em torno da fé plena que é possível dormir apenas mais cinco minutos. A fé é mais forte que a razão e as evidências. Mas a fé é tola também. E insistente. O corpo sempre pede mais cama, mas a mente se culpa e se tortura, não se entregando ao relaxamento, imprimindo ao corpo mais cansaço. Há um habito cruel nessa rotina da briga da mente com o corpo físico e sempre quem perde sou eu. Essa briga dura sempre mais que cinco minutos. Às vezes dura mais de duas horas. Às vezes se estende por todo o dia, principalmente pelas as manhãs de terça. Odeio terças feiras. Não sei por quê.

Mas era sábado, 6:30h da manhã e não havia motivo nenhum para estar acordado. Mas, no entanto, a mente completamente desperta decidiu ignorar os apelos do corpo por mais algumas horas de sono. Poderia ter dormido aquele dia inteiro.

Ao contrário do dia anterior, quando o céu doía de tanto azul, o céu daquele sábado estava estranhamente branco. Deitado na cama, eu olhava pela janela do quarto e o céu estava branco. Não se via as nuvens, ou melhor, o contorno das nuvens. As nuvens estavam lisas, fazendo do céu um tapete branco, completamente branco... E é difícil não prestar atenção em um céu tão estranho assim. E, acordado, mas não completamente desperto, eu via o dia clarear, com pensamento vazio, mas com resquícios daquilo que sobra dos sonhos... E pensando nos sonhos, me veio a imagem da mulher que eu encontrei no almoço, sexta, no MAM.

Tem horas em que é preciso exercitar a memória, senão, passado um tempo, o que a gente lembra é algo feito de poucos fragmentos de realidade, preenchido por toneladas de ilusão. A memória é sim uma ilha de edição. E, poxa, que delícia, que bom, nesse estágio letárgico, lembrar da mulher do MAM. A mulher que não tinha nome, ou melhor, que não havia dito o nome, é na minha cabeça a mulher do MAM. Tenho dúvidas se sonhei com ela naquela noite, mas certamente sonhei com ela naquele momento de briga com o despertar.

E ali, deitado na cama, olhando um céu estranhamente branco, eu lembrava aquele encontro mais que inusitado. Lembrava de detalhes, recapitulava as palavras que haviam sido ditas, gestos, imagens. Tentava reconstituir, palavra por palavra, o diálogo daquele jogo. É difícil esse exercício para uma pessoa como eu, que só tem memória afetiva, não tem memória dos fatos, apenas das sensações em torno dos fatos. Era, por isso, importante acordar e pensar naquele encontro. Para que aquela história tivesse mais realidade do que fantasia. Com o tempo, se aquele encontro com a mulher do MAM tivesse sido o único, certamente a história viraria apenas uma fantasia. Seria, de qualquer maneira, fantasia ou realidade, uma excelente história. E ali, deitado na cama, brincava de lembrar e de preencher com ilusões aquilo que eu não lembrava. E, nas lembranças, havia aquela mulher. Uma mulher espetacular. Linda, morena, sexy, livre, deliciosamente livre e com um sorriso largo. Não era preciso qualquer fantasia para melhorar a lembrança da imagem daquela mulher.

E assim se passou uma manhã de sábado. Eu deitado na cama olhando o céu branco que lentamente se desfazia, deixando aparecer azuis, pensando no encontro do dia anterior. Pensei se eu havia dito algo errado, se eu podia ter feito algo pra conseguir aquela mulher. Sim, certamente, mas não sabia o que. Mas talvez não, se lá. Era, e sempre será, uma dúvida. E quando o pensamento mudou das lembranças deliciosas daquele delicado encontro para uma angustia e cobrança sobre o que poderia ter sido feito de melhor, coincidentemente percebi que o céu estava totalmente azul e sem nuvens. Sem perceber, elas se foram. Era preciso aproveitar a beleza daquele dia. Sempre é preciso aproveitar os dias bonitos.

E assim foi. Corridinha nas Paineiras, banho de cano, água gelada, vista do Rio, caminhada reflexiva de volta ao carro, pernas cansadas, dia frio, com sol, mas lindo. O Rio é uma cidade que me mima. É impressionante como ele me trata bem. E, ainda assim, com todas as distrações do mundo, com todos os mimos, pernas cansadas e, naquele momento, fome, eu ainda pensava na mulher do MAM. Enquanto caminhava, em um esboço de roteirista, eu  planejava cenas de um eventual encontro, com direto a olhares, cenas, pausas e suspiros. Fazia tempos que eu não me sentia assim e, naquele momento, eu sentia-me mais seguro em fazer roteiro sobre utopias do que sobre situações reais. Mesmo tendo acontecido o encontro no dia anterior, eu sabia que era praticamente impossível encontrá-la novamente. E, além disso, dificilmente haveria, nesse segundo encontro, o impacto, a surpresa e as impressões marcantes ocorridas no dia anterior. A sorte não bate duas vezes na mesma porta. Ou não sempre.

Já eram quase uma da tarde quando o telefone tocou. Um amigo. Amigos são poucos. Não o via fazia uns oito meses, talvez quase um ano. Essa coisa de trabalho, de tempo, de família. Éramos quase vizinhos, mas as agendas não batiam. E era um dia livre, sem nada o que fazer. Um convite para almoçar. Em instantes, acordamos ir pra Santa. Eu estava ali do lado, ele estava perto, o dia estava lindo, mas o frio não nos convidava para uma praia.

Mineiro. Por muito tempo eu morei no Mineiro. Antes mesmo de ter morado em Santa. Casa é aquele lugar onde você se sente acolhido, protegido e livre. E ali, entre pasteis de feijão, turistas, a cumplicidade dos garçons, fotografias, enfeites, Original gelada e batida ‘afrodisíaca’ de gengibre, eu me sentia assim, acolhido. Mineiro sempre teve um lance de ser o sofá de casa... E foi lá, no Mineiro, naquele sábado lindo, céu azul de outono, que fui almoçar com *.

Sábado sempre tem aquela fila absurda no Mineiro. Todo dia tem feijoada, mas nem sempre os cariocas têm tempo, durante a semana, para se dedicar a uma feijoada.  Ainda mais a feijoada do Mineiro. Eu cheguei antes que *, coloquei meu nome na lista de espera, pedi uma Original e um copo. Fiquei na calçada observando as pessoas e nesse momento, mais do que antes, eu desejei a mulher do MAM. Eu olhava as pessoas em volta e não via, de fato, ninguém. Cheguei mesmo a fechar os olhos e a lembrar do cheiro e do sorriso largo daquela mulher. E, naquele momento, observando as pessoas sem vê-las, senti-me vulnerável e ao mesmo tempo são. Era tão obvio e fácil desejar uma ilusão e a mulher do MAM, mesmo tendo sido real naquele encontro, era uma ilusão. Nesse momento, eu respirei. Respirei de fazer força para expirar todo o ar do fundo dos meus pulmões, para em seguida enche-los com a mesma violência. E, com esforço, procurei pessoas para fixar a visão. Era preciso ver a realidade. E a realidade eram duas loiras, gringas, conversando ao meu lado, em um alemão fluente e incompreensível aos meus ouvidos. Não compreender uma palavra do que as pessoas estão falando, mesmo quando estão a poucos centímetros de você, faz parecer haver uma distância entre você e as pessoas. E eu, em busca de alguma realidade, me vi observando aquelas mulheres, loiras, gringas, reais e distantes. Observava-as como quem vê gazelas no zoológico, colado às grades, com misto de curiosidade e indiferença, com uma curiosidade quase cientifica. Não me importei de ser percebido e era quase impossível não ser, pois praticamente eu participava da conversa. Mas, mesmo reais, eram elas, as gringas, menos sedutoras do que o mar de possibilidades que era a fantasia da mulher do MAM. Era um dia bonito, mas era um dia estranho. O mundo estava estranho. Ou estava eu.

Fui salvo por *. Na hora que a situação que eu criara sozinho estava se tornando angustiante, * chegou. E de cara, percebeu que eu não estava bem. É uma sorte não ter que explicar certas angústias. Quando * chegou, me acalmei. E tomamos cerveja em pé por um tempo. E falamos amenidades. E de novo o dia estava  bonito de novo.

* era, ainda é, sempre será, um amigo irmão. Amizade daquelas que transcende tempo e distância. Mas, já disse, não o via há algum tempo e não sabia o que ele estava fazendo da vida. Tomamos umas quatro garrafas antes de conseguirmos uma mesa. E nessas quatro garrafas falamos de trabalho, de saúde, de viagens. Ele continuava com o mesmo emprego, mas estava procurando algo mais calmo, que lhe rendesse mais tempo livre. Havia feito uma cirurgia para uma lesão no ombro, causado por um tombo de moto. Ele estava planejando uma viagem para Bolívia. E eu escutava ele falar. As histórias que ele contava eram reais. Ao menos para ele, elas eram reais. Mas, pra mim, o que ela falava era ilusão. Era preciso imaginar as cenas, as situações, as possibilidades. Mas valia, pra mim, a distração.

Estávamos sentados em uma mesa colada à parede e eu estava de frente para a rua. Sem perceber o meu silêncio, continuava a falar. Eu continuava a ouvir, mas observava também as pessoas na rua. Era preciso distrair-me. E ele falou das mulheres com que havia saindo. Contou por auto que havia saído por um tempo com a irmã da minha ex mulher, mas que agora estava namorando. E mais, estava completamente alucinado com a mulher que conhecera em um encontro fantástico. E, eu, pegando esse gancho de encontros e cansado de tanto escutar, vomitei toda a minha ansiedade e desconforto. Interrompi a história de *, contando todos os detalhes, reais e inventados, do encontro com a mulher do MAM.

Descrevi o encontro, colocando agora em palavras todas as sensações e impressões que tive. E falei da minha surpresa, da minha falta de expectativa, da minha vulnerabilidade, do poder e da força da mulher livre que eu havia conhecido. Verbalizei fantasias de um segundo encontro, o que eu faria, o que eu não faria. Falei de estratégias para procurá-la e a certeza, que até então eu não tinha, de que eu ainda a encontraria de novo. E eu falei tudo isso sem a menor calma, lógica e ordem. E * me escutava, feliz e confuso, tentando se entender no caos do meu discurso. Do pouco que entendia, e não entendia quase nada do que eu falava, ele percebeu que eu estava feliz. E eu estava. Havia, depois de muito tempo, algo que me angustiava e isso me deixava feliz. Eu havia passado muito tempo indiferente ao mundo, nada me interessava, mas a angustia era um sinal de vida e isso me deixava feliz.

Falei tanto, por tanto tempo, que cansei. E rimos. Estávamos já na oitava garrafa de cerveja e na sexta dose de gengibre. Longe de estarmos bêbados, estávamos felizes. Cada um com seus motivos. E rimos. Era bom estar com um amigo naquela hora.  Era um dia muito bonito.

E, no meio daquele riso, pareceu-me que aquele dia bonito seria também meu dia de sorte. A mulher do MAM entrava lentamente no Mineiro. Perdi o ar. Olhei-a com olhos de câmera lenta e eu já não escutava nem mais um som das mesas vizinhas. Eu escutava apenas as batidas do meu coração. Ela vestia um sorriso largo, cabelos soltos, óculos escuros, grandes. Vestia também uma calça jeans justa, baixa, com uma blusa preta, duplamente generosa, por deixar a mostra uma cintura fina com barriga definida, numa pele dourada pelo sol, e pelo generoso decote que insinuava mais que mostrava e que, em mim, dava água na boca. Ela, nos meus olhos de câmera lenta, no alto de seus saltos vermelhos, movia com uma harmonia cinematográfica. Seus cabelos tinham um movimento que competiam com o de sua cintura e eu já não sabia para onde olhar.

Perdi todas as estratégias e idéias que havia imaginado. Eu estava chocado, surpreso, impressionado, maravilhado, admirado, arrebatado por aquela imagem. Eu estava sem ar. Não havia ar suficiente no mundo para mim.

E ela vinha na minha direção, sorriso largo e passos firmes e harmônicos. E eu, abestado, sorri de volta. Respirei e senti que, em instantes, já seria possível falar.
* se levantou. Eu também. Ele a e mulher do MAM cumprimentaram-se com um beijo singelo na boca. Ele me apresentou, “essa é Ana, minha namorada.”

E eu perdi o ar. De novo.

Ana. Palindromicamente Ana.

Sem tirar os óculos escuros, ela estendeu a mão, com seus braços longos, delicados e definidos, e era uma mão firme e disse “prazer”.

E eu pensei em todos os sentidos da palavra prazer, seus sinônimos, suas aplicações e possibilidades. E sem, ar, eu nada respondi.

Sentamos e * começou a falar, mas havia, ainda para mim, o maior silêncio do mundo. Via de canto de olho os movimentos dos lábios de *, mas eu só ouvia o silêncio dos meus pensamentos, tentando aterrissar e colocar de novo os pés no chão. Escutava, além, mais forte do que antes, as batidas do meu coração.

No que Ana, e a ela eu escutei claramente, fala ao garçom:
— Que vinho você tem?
— Não sei, vou ver, dona.
— Não vê, não, rapaz, me traz uma taça do que você tiver.
— Não trabalhamos com taças, dona.
— Então me traz uma garrafa, por favor.

E nisso acabou-me o ar, completamente, e nem às batidas do meu coração eu escutava mais.

Foi um dia bonito aquele, mas estranho. Muito estranho. Naquele dia eu voltei a fumar.

A sorte não bate duas vezes no mesmo lugar. Ou não sempre.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Playlist 1

Ouve isso.

Cheiro de mar


Ela acordou sem saber ao certo se ainda eram oito da noite ou se já eram cinco da manhã. Acordou sem querer acordar. Teve de novo um sonho daqueles que não sabia mais se era sonho. Acordou e ainda sonhava. Acordou cansada. Mais cansada do que fora dormir.

Era a primeira folga que tinha em um mês e estava entrando no terceiro dos quatro dias que iria ficar em casa. Estava mais cansada que antes. Havia se acostumado ao trabalho de madrugada, mas havia uma dívida de horas de sono que o corpo se recusava a pagar. Precisava e queria descansar. Acordou e ainda sonhava. Havia ido dormir para parar de pensar. Mas pensar era só o que fizera. Estava cansada.

Sonhava com um homem. Sonhava recorrentemente com um homem. O mesmo homem. Não sabia seu nome, nem seu rosto, nem nada, mas era uma figura constante em seus sonhos recentes. Sentia seu cheiro ao acordar e era como se ele estivesse estado dentro dela, como se ele a tivesse invadido cada milímetro de suas entranhas e deixado seu cheiro por lá. E ele cheirava a mar. Aquele misto de sal, areia, água, vento e sol, aquele cheiro de porra apodrecida, de sexo de ontem. Ela lembrava dele, sentia o cheiro de mar e lembrava de porra velha. Achava que tinha o mesmo cheiro de quando passava dias trancada no quarto, trepando, bebendo e fumando, sem comida e sem banho. Sim, houve épocas que se trancava no quarto com o namorado, com o amigo, com a amiga, com que fosse e só saia quando estava a beira da morte, esquálida e de pernas bambas. E o quarto ia acumulando um cheiro de suor e porra, de fluidos, que, depois de um tempo, lembrava cheiro de mar. E ela lembrava do homem do sonho apenas pelo cheiro de mar. Ou da sua porra velha... Tinha um tesão sem fim  naquele cheiro, ainda mais naquele homem sem nome e sem rosto. No dia anterior tinha sonhado com ele e pode jurar que, ao seu lado, a cama estava quente e úmida. Noutro dia, o sonho havia sido no banho. E sempre, sempre, lhe sobrava o cheiro de mar.

Precisava e queria descansar.  Mas acordou e ainda sonhava. E naquele acordar cansado, com tesão e cheiro de mar, tentava lembrar do sonho que acabara de ter. Como o travesseiro entre as pernas, lembrava das mãos daquele homem. Lembrava da aspereza do toque, da grossura dos dedos, das marcas e, principalmente, do tamanho. Eram mãos enormes. Seus dedos pareciam assustadoramente sexies. Dedos grossos, brutos. Respirava e apertava contra si o travesseiro.  O toque daquelas mãos a fazia suspirar. E suspirando, voltava àquele lugar que fica antes do sonho, depois do acordar. Àquele limbo onde não sabemos bem onde estamos, ou quando estamos... E assim, com as mãos grandes e ásperas, dedos grossos, que a faziam suspirar e apertar o travesseiro contra o meio de suas pernas, segurando as suas mãos, leves e delicadas, ela adentrou, cansada, aquele sonho acordado. Bebiam whisky, sem gelo, em um bar antigo do centro, e seus goles eram fortes e grandes e o whisky lhe descia a garganta como se fosse água. As mesas era pequenas, o bar quase vazio, muitas fotografias na parede, gente famosa nos retratos. Gente famosa e morta. Ela já havia estado lá. Só o copo de whisky destoava. Era um copo de vidro vagabundo, Aquele copo não era dali. Ela não via o rosto daquele homem, mas via cada detalhe daquele lugar e daquele corpo grande parado à sua frente. Sim, definitivamente, ela o conhecia, apesar de não o reconhecer. Ela tentava acompanhá-lo no whisky, mas ele bebia com uma sede de outros tempos. O copo se enchia sozinho, mas ela não via como. Ficou curiosa, mas ela não queria perder aquele homem de vista. Tinha a sensação que se desviasse mais uma vez o olhar para qualquer lugar, ele desapareceria. E assim, ficou, olhando-o beber e respirar.  Sua respiração era profunda, quase eqüina, bestial. Podia-se ouvir o ar entrando pelo seu nariz e dilatando seus pulmões. O peito estufava-se e era uma cena que a hipnotizava. E naquele sonho que não era sonho, não trocaram uma só palavra. Olhavam-se, ele sem rosto, seguravam-se as mãos e ele bebia.  Havia silêncio, tensão e tesão. A vontade dela era subir naquele homem grande, no meio daquele bar, tirar-lhe a roupa, sentir-lhe por dentro e deixar-se invadida por aquele cheiro de mar. Apertava o travesseiro, enquanto ele tomava mais um gole. Gozou.

Respirava ofegante e então entendeu. Não sabia porque, mas devia àquele homem no sonho. Olhava-o as mãos, os braços, o peito largo, as marcas e soube que lhe devia uma trepada. Não, não era apenas que ela queria, e sim, queria e queria muito, trepar com ele. Mas, por qualquer motivo, ela lhe devia isso. E ele apareceria em seus sonhos diariamente para, silenciosamente, lhe lembrar dessa dívida. Abriu os olhos e viu as paredes do quarto. Ainda era escuro. Talvez fosse oito da noite, talvez fosse cinco da manhã. Fechou os olhos e sem dificuldade voltava aquele bar. Estava lá parado o homem de mãos grandes e largas, copo vazio, sem rosto.  Ela levanta e no meio do bar e por baixo do vestido, tira a calcinha. Coloca-a dentro do copo. Era a forma dela dizer que queria pagar aquela dívida.

Abriu os olhos. Estava mais acordada que nunca. Foi à cozinha. Eram duas da manhã. Precisava dormir mais um pouco. Estava de folga e tinha que descansar, pois o trabalho, trabalho de merda, voltaria com todo gás em dois dias. Pegou o rivotril. Sete gotas deveriam bastar.  Sabe que não tem adiantado muito. Já teve tempo em que sete gotas bastavam. Precisa relaxar. Depois de gozar ela sempre acorda. Tem as pernas bambas e o corpo cansado. Serve-se de whisky. Puro. No copo de cristal, próprio pra isso. A mente está a mil. Fecha os olhos. Sente o cheiro do mar. Ou seria o cheiro de porra velha? Gosta dos dois e acha que os dois têm o mesmo cheiro. Queria que aquele homem lhe batesse à porta. Odeia dever a alguém. Ainda mais essa dívida.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Papo besteira I - Tortura no exame médico


Tá, vamos combinar. Ficar 12 horas em jejum e beber dois litros d’água horas antes do exame não é legal, né? Fica, nessas horas, comprovado que a bexiga controla o cérebro. Você não pensa direito, suas frases são curtas, seu foco está num lugar só: em segurar-se. Dai, como todo laboratório, como grande parte dos consultórios, do médicos, a bagaça atrasa e você fica pensando que podia ter esperado pra beber aquela água toda uma hora mais tarde. Ou duas. Mas, enfim, você já está lá, não quer esperar mais três semanas pra passar pelo mesmo sofrimento e, pensa, porra, não deve ser tão difícil segurar um xixi na bexiga, né? E vamos lá, firme e forte. “Seja macho!”, lembrei da voz do meu avô amazonense criado no Ceará. Com duas horas de atraso e já sentindo não só vontade de fazer xixi, mas também dor, você é finalmente chamado. A sua cara de desespero comove a enfermeira, a médica e até os outros pacientes. A dor causa solidariedade e esse é um fenômeno que eu nunca entendi. Sempre achei que devíamos, ou podíamos, ser solidários o tempo todo. Mas, enfim, você entra pra fazer o exame. O ar condicionado da salinha pequena parece ter sido recém instalado e ajustado para uns -25°C. É preciso tirar a camisa e abaixar a calça, o que faz o frio literalmente dar uma apertadinha, básica, na sua bexiga. É, meus amigos, seria mais interessante se eu dissesse que eu mijei nas calças, mas, enfim, uma única gotinha não pode ser considerada uma mijada.

O que aconteceu, passado esse sufoco todo, é que a médica, muito solicita e aparentemente solidária na minha dor, me pergunta porque eu estou fazendo um ultrassom de abdômen completo, no que eu, prontamente respondo, seguro, que a médica que me receitou o exame queria confirmar uma hérnia abdominal. Dai, o rosto da mulher se tornou ainda mais solidário, passando para uma cara visivelmente triste. Me espantei, pois achei que uma hérnia abdominal fosse sim um coisa bastante simples, e a cara dela era de que havia algo de errado. No que eu pergunto se aquilo é ruim ou se é uma besteira, ela me confirma que é uma besteira, mas que aquele exame, para o qual eu tive que beber litros d’água e que estava bastante atrasado, não servia para visualizar uma hérnia de parede (ela me corrigiu nessa hora). O exame que devia ter sido solicitado era um ultrassom de partes moles, que não precisa desse tratamento medieval e colocar uma pessoa sem comida, a base de muita água e sem poder aliviar-se. Ela me disse que iria fazer o exame solicitado e que eu teria que remarcar o exame. Porra.

Pense numa pessoa com ódio? Pensou? Agora multiplica por 10. Soma uma bexiga cheia e fome... Então, era eu.

Por sorte, as pessoas solidárias a quem tem dor, também o são com aqueles que são vitimas de erros. Pelo menos, aquela médica era. Deve ter contado minha cara de um dia de fúria e ela deve ter se assutado com isso também... E acabou que ela passou a maquinhinha uns três centímetros acima de onde era o "limite" entre um exame e outro. Me surpreendi que era aquela a diferença entre um exame e outro. Era por conta de três centímetros que eu teria que marcar um novo exame, voltar, demorar horas pra ser atendido de novo. Fiz a cara de agradecido, mas, quem me conhece sabe, não sou muito bom de disfarce e provavelmente meu ódio e indignação estavam transbordando. Só o meu xixi que não. Estava lá, na primeira fila, na porta da saída, na escada do ônibus, ali, pronto e esperando... Uma cutucada mais forte na bexiga e seria um desastre. Mas, já disse, deu tudo certo. E, como não podia acabar ruim a história, afinal, trabalhamos com sorte, a médica – e já não a considerava boa – descobriu, apesar do pedido errado da médica má, que não se tratava de uma hérnia de parede, e sim de um de apenas uma bolinha da de gordura inofensiva.

Pra coroar essa pequena felicidade, vem o momento sublime de aliviar-me por uns longos minutos. Sensação de eternidade e êxtase. Quase um orgasmo. Prazer divino.

Passada a tortura, ainda agradeci a médica, esquecendo toda a falta de estrutura do grande laboratório, o exame medieval, o erro da médica má e a “caridade” da mulher me “dar mais um exame . Impressionante como colocar o bode na sala é uma grande “solução”. Eu continuava com o que tinha, com a mesma dor e o mesmo incomodo. Estava sinceramente feliz de passar por esse procedimento de merda pra não ter merda nenhuma. O famoso bode.Um bode de bexiga aliviada.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O dia amanhece e ela nem dormiu

São cinco horas da manhã. O dia amanhece e ela nem dormiu. Olha pela janela suja do ônibus a vista do mar. À frente, vê o contorno suave da luz por detrás da montanha. E denuncia-se um céu sem nuvens de um dia que será quente. De hoje em diante todos os dias serão quentes. Seu corpo está exausto, foram horas de trabalho. Trabalho e prazer. Tem prazer no trabalho pelo simples motivo que, sem trabalho, sua vida é um caos. Pensa assim ou se esforça em acreditar nisso. Pensa assim ou se esforça faz tanto tempo que já não se importa mais. O importante era que, ali, naquela manhã, naquele dia, ela tem um trabalho. Ela está exausta e feliz. Passou seis meses sem ganhar nenhum tostão. Sua vida estava um caos. E agora tinha um emprego. Um emprego de merda. Mas, ela sabia – e ela sabia bem – que merda é não ter emprego. E mesmo sabendo que era aquele um emprego de merda ela estava feliz. Olha pela janela, vê a paisagem mudar e o mundo passar, e acredita que as coisas estão mudando. Finalmente. Ela tem fé. E ela nem sabe que tem fé.

Seus pensamentos estão vivos e dispersos. Enquanto o ônibus avança veloz pelas avenidas sem trânsito, sua cabeça dá voltas. O corpo, quando cansado parece abrir um espaço para novas sensações da mente. E nessas sensações misturam-se pensamentos do cotidiano, lembranças, memórias, suposições, desejos, fantasias, medos, sonhos. E olha pela janela e pensa na conta atrasada do celular, no conserto da máquina de lavar, na roupa pra escolher do casamento da prima que vai ser no sábado agora. Ela conta as horas de sono que perdeu na semana por conta dos pensamentos que tem, lembra do homem que sorriu pra ela no elevador e que pareceu olhá-la na alma, deixando-a rubra, lembra da última vez que teve um orgasmo. Suspira. A paisagem muda, o tempo passa, e ela pensa que precisa conversar com seu namorado e lhe dizer que as coisas não estão legais, mas que na verdade ela não está legal e que ele é sim muito legal e que seria bom se ela conseguisse lhe pedir, de novo, pra ter paciência. Ela pensa no ex e sente culpa, mas pensa de novo e respira. Ela pensa que queria viajar, largar tudo e viajar. Deixaria o filho com o pai e viajaria um ano ou dois. Iria a lugares que ela nunca foi, visitaria de novo os que já conhecia. Iria sentir saudade do filho, mas tem suas dúvidas naquele momento. Pra viajar do jeito que ela quer, ela precisa de dinheiro e pensa que podia ganhar na mega-sena. Acumulou em trinta milhões. Guardaria vinte e cinco e com o restante viajaria o mundo e ajudaria a família. Ela respira e pensa se realmente ajudaria a família. Talvez por culpa, mas no fundo no fundo ela sabe que não quer ajudá-los. Pensa nos vícios do pai e na doença da mãe e em como está, mesmo sem querer, se tornando um misto do pior dos dois. E tem dúvidas se é pra ser assim ou se ela pode mudar isso. Pensa nos vinte e cinco milhões e faz as contas pra ver quanto ela poderia gastar por mês sem torrar todo o dinheiro. Não sabe se sabe fazer essa conta e pensa no ex de novo. Talvez ele pudesse ajudar. E ela se sente culpada de novo por pensar nele de novo. Confunde-se e perturba-se sozinha, por isso respira. Pensa que precisa arrumar um emprego decente, no qual não passe as madrugadas fora, no qual trabalho naquilo que estudou, naquilo que lhe de prazer. Pensa e pensa e já não sabe realmente o que lhe dá prazer. Lembra de novo do homem do elevador e em seguida no namorado. Eles precisam conversar.

E assim, nesse instante, ela pensou tudo isso e está na hora de descer do ônibus. Está perto de casa, um quarteirão de distância. Pára na padaria, compra três pãezinhos quentinhos e cheirosos.   E o cheiro afasta tudo aquilo o que ela estava pensando. Seu corpo está exausto, mas no elevador de casa ela abre um sorriso por estar ali. A mente começa a descansar e o sono já dá sinais. Deixa o pão na cozinha, vê a mãe dormindo no sofá da sala, vai ao quarto e dá um beijo no filho que também dorme. Olha o menino e vê como ele cresceu. Parece que foi ontem que ele ainda mamava. Fez-lhe um carinho, no que ele, sem despertar, sorriu. Sabia ele que a mãe havia chegado. Ela olhava aquilo que lhe era mais valioso e era a prova de que ela era boa em alguma coisa. Foi à cozinha, fez um café, sorriu, e enquanto esperava, acendeu um cigarro. Não estava onde queria estar, mas era o que tinha pra hoje e estava feliz por finalmente aceitar que a vida assim, uma possibilidade entre mil. Daqui a pouco seu filho acorda e é outro dia. Ela vai esperar pra ganhar um abraço dele. Está precisando.


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

21 anos.


21 anos é uma eternidade. Onde você quer estar daqui a vinte e um anos? Como você será? O que terá acontecido ao longo desses vinte e um anos? 21 anos é uma eternidade. Se eu estiver vivo, e falo isso respeitando a morte como quem respeita um velho amigo, daqui a vinte e um anos eu terei 55 anos. Minha filha terá 27. Já será uma mulher e já terá uma longa história. Já poderá ter sido mãe e eu já poderei ter sido avô. Imagino quantos netos terei. Será apenas um, mimado e genioso como eu fui? Serão dois, três...

Daqui a vinte e um anos, por que lugares eu terei passado? Que histórias novas eu terei para contar? Quais histórias eu terei esquecido e quais as histórias que eu nunca esquecerei.

21 anos é muito tempo. Uma eternidade. Mas os que nascem hoje, daqui a 21 anos, estarão se tornando legalmente maiores. (Confesso que nunca sei qual a diferença da maioridade aos 18 para aos 21, se é que ela ainda existe. Está tarde para consultar meu advogado). Daqui a vinte um anos, os nascidos hoje, 22 de setembro de 2011, se tiverem boa sorte e se o sistema de ensino for o mesmo que o atual, eles estarão no meio pro final da faculdade, naquela fase em que começamos a ter segurança, nos achando adultos, mas que continuamos a fazer as mesma merdas que fazíamos quando adolescentes... Se bem que alguns nunca deixam de fazer. Desejo saúde aos que nascem hoje e que estes tenham sorte de chegar com felicidade aos 21 anos, daqui a 21 anos...

21 anos é muito tempo. Quantas pessoas novas você vai conhecer nos próximos 21 anos? Com quantas será apaixonado? Com quantas fará amor? E com quantas fará uma sacanagenzinha casual? Além disso, quantas se tornarão amigos? Amigos de verdade, com os quais você possa caminhar os 21 anos seguintes – no meu caso, até os meus 76 anos de idade.

Quantos livros você terá lido? Quantos filmes você terá visto? Por quantas revoluções tecnológicas você terá passado? Imagine você contando aos seus filhos, seus netos, que você teve um Ipad 2 e eles te perguntando o que era isso ou  como você conseguia operar algo tão tosco, tão arcaico. Imagine, daqui a 21 anos, como serão os carros, as ruas, como se vestirão as pessoas...

Será que daqui a 21 anos nosso planeta terá sobrevivido há nós? Quantas “crises” econômicas ocorrerão até lá? Será que os oceanos invadirão as cidades? Será que ainda teremos calotas polares? E petróleo? Estaremos cavando até o centro da terra para buscar energia? E o clima, que já está louco, o quão insano estará daqui a 21 anos...

São infinitas as perguntas e as possibilidades para daqui a 21 anos. Seriam perguntas sem fim. E sem uma resposta precisa. Não agora. 21 anos é muito tempo.

21 anos atrás minha vida mudou. Há 21 anos eu perdi algo muito importante. Muito. Foram doídos esses 21 anos nessa coisa que mudou. Pesou, deu saudades, deu raiva, deu medo, deu um monte de coisa. Por conta disso, eu tive que me virar. E, muito por conta dessa perda, e de ter que me virar, eu sou quem eu sou hoje. E só hoje, passada essa eternidade, eu pude entender porque e aceitar essa mudança, essa perda. E é muito bom, bom pra caralho, poder sentir que, mesmo tendo se passado 21 anos, está tudo finalmente bem. E que eu to muito feliz de que as coisas estejam finalmente bem em mim. Feliz demais.

Obrigado ao tempo que cura e ao tempo que temos para aprender. Obrigado.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A triste história de um homem de sorte


Ele sempre achou que tinha uma sorte extraordinária.

Ele não teve aquele tipo sorte de nascer em berço de ouro. Nem de prata. Nem mesmo de bronze.  Não teve a sorte de ter uma família normal – se é que há alguma família que seja normal. Família normal pra mim é a síntese do antagonismo. Mas fato é que a dele era menos normal que a maioria. Ou ao menos, ele pensava assim.

Ele não teve a sorte de ser um gênio e ter tido uma carreira profissional meteórica e ter ganhado rios de dinheiro. Não havia sido nem um super atleta ou um prodígio em qualquer área. Não era famoso, não ganhou na mega-sena. De fato, não ganhava nem no bingo, nem na rifa e nem na porrinha...

Não achava nada disso sorte. Sorte de fato. Sorte era o que ele tinha. Tinha certeza de que era um cara de uma sorte extraordinária. Tinha absoluta certeza.

Nada de mal lhe acontecia. Trabalhava, estudava, se divertia, tinha bons amigos, errava e acertava na vida e o saldo era sempre bom. Por isso se achava um cara de sorte.  Não lhe sobrava dinheiro, nem tampouco lhe faltava. Aos amigos, tinha sempre alguns por perto. E se não tivesse, o acaso lhe aparecia com novos amigos ou amigos de ocasião.

Sempre que algo ruim inesperadamente acontecia, era certo de que algo extraordinariamente bom iria lhe acontecer em seguida. Assim, ainda que se machucasse com os tropeços que dava na vida, tinha muita confiança de que logo em breve estaria rindo do que passou.

Sua sorte estava na maneira de olhar o mundo.

Até que um dia sua sorte mudou.

Voltava do trabalho em uma segunda feira, tarde da noite e chovia fino. Ruim para andar de moto com o asfalto escorregadio. Parou no primeiro bar que lhe apareceu no caminho de casa. Estava cansado e, justamente por ser um cara de sorte, sabia que não era bom abusar dela. Segunda, frio e chuva, bar lotado.  Uma luz forte, amarela, mesas cheias, pessoas bonitas, barulho, copos de cerveja, garçons transitando em espaços apertados, equilibrando bandejas com mais e mais cervejas, pessoas se espremendo para fumar debaixo de um pequeno toldo.

Passou o olho por todo o bar em busca de conhecidos. Estava cansado e uma conversa descompromissada lhe ajudaria passar o tempo da chuva. Não achou ninguém, mas arrumou-se em um pequeno espaço no balcão, onde pode pedir uma coca e um sanduiche de filé. Pensou em tomar uma cerveja, mas de moto na chuva não seria bom abusar da sorte.

E a sorte veio.

Dois olhos verdes caminhavam em sua direção, fixos nele, acompanhados de um sorriso largo, leve e que lhe parecia muito familiar. Pertenciam a um rosto simétrico, de traços delicados, mas expressivos, demonstrando, na embalagem, toda a personalidade  que havia naquele corpo. Cabelos nos ombros, castanhos, não escondiam o pescoço alvo, firme e longilíneo que equilibrava aquele movimento de corpo. O pescoço direcionava o olhar dele aos ombros, nem tão largos, mas nem tão estreitos, gentilmente balanceados e harmônicos. Seios firmes, médios, vivos e pulsantes sob um vestido preto, longo e largo. Eram seios quase suplicantes. O vestido, tecido molinho, denunciava as formas do corpo, sem nada mostrar.
Dois olhos verdes caminhavam em sua direção, carregados por passos firmes e lentos. Era uma mulher de quase seus um metro e setenta, linda, que com seu brilho e sorriso destoava de toda aquela cena de bar na segunda de chuva.  E o sorriso familiar...

Nesses momentos ele reafirma sua certeza de ser um cara de sorte. Mas, dessa vez, ele estava errado.

Não tinha idéia de quem era ela, mas ela veio, firme e bela, lhe cumprimentado com um longo abraço. Longo, de minutos. Passando uns trinta segundos de estranhamento, ele imóvel, percebeu a textura e os contornos da cintura daquela mulher, bem como a firmeza mais rígida que o normal de seus seios. E aquilo lhe deu água na boca.

Desvencilharam-se do abraço e agora os olhos dela estavam cheios de lágrimas, mas o sorriso largo e honesto continuava estampado no rosto. Ela lhe era muito familiar, mas ele foi incapaz de reconhecê-la. Chegou a pensar que a bela moça talvez o tivesse confundido com outro alguém, mas não. Ela sabia quem era ele, sabia tudo dele. Mas ele não.

Ela não podia acreditar, mas percebeu, no constrangimento e no desespero dos olhos dele que ele não mentia. E foi ai que ela chorou mais. E quem se desesperou foi ele. O bar inteiro parou para ver a cena, mas eles não se importaram. Na verdade, nem perceberam. Apenas se abraçaram novamente.

Foram, então, fugir daquele barulho, e, fora do bar, sob a chuva fina, conversaram.

Ela lhe explicou que era sua ex-mulher e que haviam sido casados por 3 anos. E que fazia exatamente um ano, naquela segunda fria e chuvosa, que eles haviam se separado. Que eles se separaram por motivos fúteis os quais ela não lembrava, que ela saiu de casa, confusa e triste com coisa que há tempos ela não sabia o que era. E que vê-lo, ali, naquele dia, tremenda coincidência, tinha sido um sinal de que ela nunca havia o esquecido ou deixado de amá-lo.

E ela falou isso com detalhes, contando como haviam se conhecido, por onde tinham viajado, com detalhes da casa onde moraram. Falava aos prantos, com as lágrimas que se confundiam com a água da chuva em seu rosto, indignada com o silêncio dele, olhos esbugalhados, que escutava a tudo sem dar uma palavra, sem emitir um som.

Ele estava em choque. Escutou atento tudo o que aquela mulher linda lhe falava. Pensou que ela era louca, mas ela sabia todos os detalhes da sua vida, da sua casa, de tudo. Tudo o que ela falou encaixava na história da vida dele, exceto ela. Reverberava em sua cabeça “que fazia exatamente um ano, naquela segunda fria e chuvosa, que eles haviam se separado”.

A chuva passou.  E ele falou apenas “Desculpa, mas eu não lembro.” Dela, ele só lembrava o sorriso. Era a única coisa que havia sobrado pra ele. Nem seu nome ele sabia. E quando ele lhe perguntou, ela não lhe disse. Chorou aos berros e correu, indignada, humilhada, triste, maltratada.

Ele ficou parado. Olhando-a correr. Corpo magro, passos firmes, mesmo no desespero, uma mulher cheia de leveza. Não fazia sentido, naquele momento, ir atrás dela. Estava ele em choque, não sabia o que dizer. Havia dito a verdade e a verdade é que ele não sabia quem era aquela mulher.

E naquele dia a sua sorte acabou.

Na mesma noite, foi pra sua casa e revirou seus álbuns de fotos, seus papeis, suas cartas, seus e-mails. Revirou tudo atrás de uma pista a respeito daquela mulher. Espalhou roupas e gavetas pelo chão, buscou no alto do armário e não havia nada sobre aquela mulher na sua vida, mas, por conta daquele encontro, ele sentia que tinha sido verdade e que ele apenas não lembrava. Ele não achou nada real, exceto um bilhete, numa caixa de sapatos, assinado “com todo amor do mundo, M.”

Ele não sabia quem era M, mas reconhecia a letra, assim como reconhecera o sorriso.

Pensou em ligar para amigos, para família, para alguém, mas ele não queria passar por louco. Não se lembrava de ninguém, nunca, ter comentado sobre ele ter sido casado, ainda mais aquele tempo. Seria estranho perguntar a eles qualquer coisa a respeito. Seria mais estranha ainda qualquer resposta que ele viesse a ter. Preferiu o silêncio.

Foi trabalhar no dia seguinte atrasado, desconcentrado. Algo havia mudado. Sentia-se, e nisso estava certo, pela primeira vez na vida, sem sorte. Depois do trabalho, foi de novo àquele bar, na esperança de encontrá-la. Perguntou ao garçom se ele se lembrava da noite passada e se, por acaso, ela costumava freqüentar aquele lugar, no que o garçom respondeu, sem pestanejar, que sim, que lembrava da noite anterior e que a moça freqüentava o bar regularmente, quase que uma vez por semana. Perguntou-lhe também se ele sabia o nome da moça, no que ele respondeu que não ao certo, mas que o garçom que estava de folga naquele dia certamente sim. Ficou até o bar fechar, esperando um sinal dela e nada. Passou a noite insone, em casa, com a cabeça a mil, pensando...

No dia seguinte, chegou mais atrasado ao trabalho e com menos concentração. E, como na noite anterior, foi novamente àquele bar. E novamente esperou. E novamente, nenhum sinal da mulher. Também não descobriu seu nome. Mais uma noite insone.

E assim se seguiu uma semana, na mesma rotina. Na segunda semana, perdeu o emprego. Justa causa. Tinha umas economias e achou que seria até conveniente ter mais tempo para procurá-la. Estava cego e obcecado.

Suas buscas eram em vão e sempre terminavam a noite naquele mesmo bar. Via o movimento, passou a conhecer as pessoas, mas, depois de um mês os garçons e o dono do estabelecimento acharam estranho aquele comportamento.  Alias, seu comportamento mudou. Estava econômico com as palavras, mais seco, mais agressivo, bem diferente de antes. Seu corpo também havia mudado. Emagreceu muito, estava com os ossos do rosto aparecendo, com a barba por fazer. Esqueceu as noções de higiene, de tempo, de espaço. Sua vida passou a ser achar aquela mulher.

Fugia dos amigos e dos conhecidos. Não queria lhes explicar o que acontecia e preferia o silêncio. E, em muito pouco tempo, os amigos e conhecidos deixaram de lhe procurar. Em dois meses era visto agora como um doente, quase um indigente. Foi proibido de entrar no bar, dado seu estado e aparência, mas continuava, religiosamente, indo todo dia na sua porta. Suas economias começaram a ficar escassas e passou a vender suas coisas. De inicio, vendeu os livros, os discos, os quadros. Depois as louças, os móveis, a moto, a casa. Passou a morar num quarto, tipo pensionato, perto do bar.

Passado seis meses, ele não era nada do que havia sido. Não tinha mais nada, nem as memórias. Em menos de um ano após aquele encontro, ele morreu, sem sorte e sem deixar saudade, exceto naquela moça que ele esqueceu. E que, aliás, nunca ninguém mais viu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dislate (1997)


Penso hoje seus olhos

e hoje está sol
e não tenho vontade nenhuma de pensar teus olhos.
Escrevo sobre meus galhos
grilos, alhos e baralhos.
Bicho, tô fodido!!
Penso teu sorriso
e teu sorriso não me faz falta.
O Raul me ilumina...

Preciso do meu eu em eu
não do meu em teu
nem do teu eu em eu.
Penso você.
Que pena,
você é dois
dois, três, quatro…
infinito zero a esquerda direita.

Esse texto está um dislate.
Late alguma coisa pra mim
late  que eu já não te mordo
já te mordi tanto
parei contigo e sem tigo
e o Digo já sabe de tudo.
Volta pro teu castelo,
sai da minha praia, mas não deixa eu entrar na sua
não me pede pra entrar na sua praia
nem na sua casa nem no meio das suas pernas.

Penso e não danço
e  você dançou
e o outro você me fez rodar
e roda o rodo
pena de você
e de você também.
Pena de galinha,
vontade de ir na cozinha,
vontade de dar umazinha.
Penso sua coxa.
Sua coxa roçando na minha
e me contando segredos da sua calcinha,
segredos que você nem imagina,
penso além do pensar...

Puro dislate fútil...
mas puro.



Soneto do Sorriso (1997)


No riso me transformo
transformam os que fazem rir.
Só rio se tenho graça
ao meu cinismo admitir.

E de falsidade em falsidade,
caminhamos todos unidos
fingindo pelo riso sermos amigos
amizade onde nada há de verdade.

Como é triste a realidade
que nos põe na cara uma aparência,
metamorfoseando eu, o Riso, em indecência.

Decente esta minha atitude.
Rio mostrando os dentes
pros pobres dos indecentes.

(em parceria com meu amigo Ricardo Jacomo)

domingo, 11 de setembro de 2011

Poema de espelho (01-dez-95)

Você não está aqui
nem fora, nem dentro do peito.
Você.
Perpétuo desejo de te ter,
submissa, sem assim o ser.
Quem irá vencer?
Somos iguais.
Eu e você.
Somos iguais.
Quem irá vencer?
Submissa, sem assim o ser.
Perpétuo desejo de te ter.
Você.
Nem fora nem dentro do peito.
Você não está aqui.



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poema pós “O amor é fodido”, de Miguel Estevez Cardoso. (08-jun-2001)




Por que me sinto tão só quando estou comigo mesmo?
O mundo, grande mundo, parece pequeno
diante do infinito da minha solidão,
tão cinza, tão cinza, tão azul...
teus olhos, azuis, imensos e distantes.

Há pessoas e o resto
e o resto parece ser tanto
que não há pessoas então.
O resto é o resto
e  o que sobra é a tal da solidão.

Há sons, luzes e, ao fundo, canção.
É como a vida na televisão.
E, como na televisão, tudo tão irreal e vão.
Uma dose de realidade em uma garrafa de ilusão.
E eu, bêbado nos alucinotrópicos e afetaminas da minha solidão.

E essa madrugada não avança ao dia...
Fico cá eu notívago a destrinchar-me
e a descobrir a ti dentro de minhas saudades
com teus olhos, azuis, imensos e distantes,
brincando e atiçando minha insônia.

Penso as vezes dar-te rosas
na esperança de te ver cortando-se nos espinhos.
Separando-se, em sangue, de mim.
Em meio segundo tenho pena. De ti.
No outro, tenho raiva. De mim.

Por que não me basto?
Por que me sinto tão só quando só me tenho?
Nesse mundo imenso, tão pequeno...
tão pequeno pra mim
tão pequeno pra mim sem você.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Manhas e manhãs...




Minhas ilusões
São suas flores
Minhas ilusões
São seus sonhos
Minhas ilusões
São seus desejos
Minhas ilusões
São sua manhas e manhãs
Minhas ilusões
Estão além de muros e distâncias
Minhas ilusões
São frágeis crianças
Minhas ilusões
Eclodem lenta e suavemente
E, suaves, mentem à minha realidade.
Minhas ilusões
Atropelam a multidão
Minhas ilusões
Crescem na sombras da escuridão
Minhas ilusões
São desejos sãos que na noite vem e vãos
Minhas ilusões
São frágeis e forte como um leão
Minhas ilusões
São sentidos e intensamente sentidas
Minhas ilusões
São sem ter sido
Minhas ilusões
São do vestido seu tecido
Minhas ilusões
São

Minhas ilusões
Não cabem nunca noite
Mas se compara a um gole de vinho
E no seu beijo tenho o mundo em mãos
Com seu corpo dominho o universo
Com seu sorriso quebro as barreiras do tempo e da realidade
Viro um deus apocalíptico, uma criança encantada.
Sou agora senhor do tudo e do nada.

Meu vicio maior é sentir
E sentir-te é o maior prazer do vicio.
Minhas ilusões
São suas manhas e manhãs
São suas tardes tardias
São suas noites inteiras.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Colecionador I


Entrou em casa ainda tonto, foi direto à cozinha e pegou um copo d’água. Olhava fixamente para o copo em suas mãos. A sensação fria do copo na pele havia lhe chamado a atenção. Era a primeira vez em duas horas que respirava.

Morava sozinho em um apartamento pequeno, quarto, cozinha e banheiro, mas com uma vista linda pra baia. Pão de Açúcar a direita, Santos Dumont a esquerda, sem prédios. Céu azul já era claro. Aquele seria um dia lindo, mas ele só pensava que não ira conseguir dormir com aquele sol e que daqui a pouco já estaria com uma puta dor de cabeça. Amanhecia e a luz amarelada do sol atravessava a janela sem cortinas, espantando o frio do fim da madrugada. Os poucos móveis faziam que o apartamento parecesse maior. Era apenas uma pequena mesa de madeira com verniz descascado, onde ficava seu computador e a cadeira, um pequeno sofá cujo estofamento já havia sido deformado há tempos, um armário de duas portas comprado há menos de dois meses e com as portas já desalinhadas. Havia uma cama grande e confortável, seu único artigo de luxo. Nada ali era lixo. Só não era importante. E não que fosse uma cama de luxo, mas era melhor que o resto. Havia também uma cozinha, com uma geladeira velha que estava sempre vazia e um fogão que ele nunca havia ligado. Na geladeira tinha água. Água comprada em garrafas. Ele não confiava em filtros. Havia dois ovos na porta da geladeira. Alguém os trouxe e ele acreditava que alguém os levaria de volta. Tinha certeza que não eram seus. Havia um armário. Poucos copos, poucos pratos, talheres, duas panelas. Para comer, no mesmo armário, havia um miojo que já devia estar ali fazia seis meses. Não tinha TV. Não tinha tempo nem vontade de ver TV e quando queria ver um filme, usava o computador. Não confiava em TV e nem em filtros. Havia também um espelho. Um grande e velho espelho de corpo inteiro. Havia um ventilador, mas muito barulhento, que só era ligado em noites de desespero ou quando havia visitas.

As visitas eram freqüentes. Mas não eram bem visitas. As visitas importantes eram poucas e raras, dos poucos amigos que tinha. Tinha três. E lhe bastavam estes. E se os encontravam, quase sempre depois de muita insistência da parte deles, preferia os encontrar na rua, vendo o movimento das outras pessoas, ou melhor, das mulheres. Adorava mulheres. Tinha fascínio. Eram todas, sem exceção, bonitas para ele. Sim, haviam as mais bonitas, as menos bonitas, as assustadoramente bonitas e aquelas que ele tinha que se esforçar para ver algo de bonito. Preferia as bonitas, as realmente bonitas. Para um dos seus três amigos, bicha bem resolvida, sempre falava que achava normal ele gostar de homem e que isso era problema dele, mas que não conseguia, de jeito nenhum, entender como ele não gostava de mulher. Mulher era seu vicio. E como todo vicio, aquilo o destruía.

Seu vicio não era de quantidade. Não gostava de ter uma mulher por dia. Não gostava da alta rotatividade. Mas gostava da conquista e, principalmente, gostava mais das mulheres depois de um certo ponto de intimidade. E intimidade, intimidade real, na qual a mulher se dava de alma a ele, demorava um pouco. Seu vicio era ter uma mulher entregue a ele. Passava uns dois meses tentando conquistar uma mulher. Tinha experiência, ou melhor tinha um olho clinico pra saber em qual mulher deveria ir. Raramente errava. Mas errava. Errar era normal, mesmo que raro.Sabia que não era um garanhão, que não era a caça e sabia exatamente onde e como jogar. A mulher que o notasse certamente se apaixonaria por ele. Nesse método, de ganhar intimidade, havia sempre quatro ou cinco mulheres enroladas com ele, fora as tantas em vista. Umas duas no processo de conquista, no “estamos nos conhecendo”, uma no ápice da intimidade, com  a qual ele se deliciava mais, e outra, que, por excesso de intimidade, ele já ia descartando. A intimidade em excesso para ele chamava-se apego, afeto ou qualquer coisa que complicasse a relação. Havia, para ele, um ponto ótima na intimidade que era conhecer e ser reconhecido pela pessoa. Mas quando a pessoa projetava expectativas nele ai já era demais. Era um paradoxo que mantinha o mundo girando. Ele cultivava e exercitava a intimidade até o momento que encontrava na mulher o prazer sexual máximo da entrega, mas a intimidade por si só continuava a crescer e gerava um apego o qual ele não podia suprir. E assim, pouco antes da coisa se estragar, ele partia. Não sem sofrer. Sim, ele sofria ao ver uma mulher bonita – e todas eram – chorar e sofrer. Sim, todas elas choravam. Todas elas sofriam. Algumas aos prantos, desesperadas, angustiadas. Outras em silêncio, duras, orgulhosas. Mas, ele sabia, afinal era intimo delas, do sofrimento daquelas moças. Mas era assim sua vida. Desapego e uma eterna caça. Uma eterna procura. Colecionava mulheres as quais se desfazia.

Saia todos os dias. Tinha um emprego publico, fiscal da fazenda, que lhe pagava bem e lhe sustentava a vida boêmia. Era bom profissional, mas, o emprego exigia pouco dele. Passava um tempo considerável na rua e isso facilitava seu oficio principal. Poderia ter uma casa melhor e uma vida melhor, mas nada lhe era prioridade, exceto as mulheres que conhecia. Saia todos os dias e gostava de sair sozinho. Sempre bem arrumado, freqüentava todos os lugares do Rio, mas sabia se comportar tanto no baile funk quanto nos salões do municipal. Era um caçador.

E era por isso que segurava com raiva aquele copo de água gelada. Um dia era da caça, outro do caçador. E aquele não havia sido o dia dele. Estava há dois meses saindo com uma mulher. Jogadora, malandra e, como todas, bonita. Saia com ela e com outras três, mas essa era a que lhe causava mais dificuldade, a que mais dificultava o jogo. O sexo era maravilhoso. Era uma mulher magra, alta, pernas fortes, uma bunda linda, olhos verdes, mas o que lhe atraia era o sorriso. Sempre amou sorrisos. Mas ainda não eram íntimos. Estavam no processo e ele não tinha certeza de que chegariam a realmente ter a intimidade que ele queria. Era uma caça e era um desafio.

Naquele dia, uma segunda feira, haviam saído para tomar um vinho. Gostava de vinhos, mas nunca tinha tido paciência para estudá-los. Assim como mulheres, sabia apreciá-los. Tomaram duas garrafas de um Awilka 2006 em um restaurante na beira do Aterro e estava ligeiramente bêbados, ou melhor, ela estava. Ele nunca ficava bêbado, não gostava de perder o controle e sabia que precisava sair dali o quanto antes, pois corria o risco da mulher passar do seu ponto e aquela noite teria sido, sexualmente, desperdiçada. Mas ela insistiu. Estava bêbada, mas parecia saber o que dizia. Ele pediu água e insistiu para que saíssem de lá. Ela pediu uma nova garrafa e a conta. Beberiam na casa dela. Ele gostava do ímpeto daquela mulher em assumir o controle. E mesmo sabendo que teria poderia ser mais incisivo, relaxava para ver as demonstrações de poder dela.

Foram então para a casa dela. Abriu a porta com o vestido semi aberto, mostrando as costas nuas, metade da terceira garrafa esvaziada no caminho. Ele começou-lhe a beijar a nuca e as coisas, ao mesmo tempo que batia a porta atrás de si e tirava o resto do vestido dela. Caminharam não para o quarto, mas para cima da mesa de jantar. Vestia apenas seu salto vermelho e sua calcinha preta. Arrepiou-se ao deitar as costas no frio do tampo de vidro. Ele admirava aquele corpo lindo de seios simétricos, aquela barriga absurdamente sexy, aqueles olhos que pareciam uma piscina e aquela boca, onde morava um dos mais belos sorrisos que ele já havia visto. Parou para admirar aquela paisagem por alguns instantes, alguns segundos. Passeava os olhos do seu rosto e descia pelo seu corpo, passando por suas coxas e subia de volta ao seu rosto quando, para sua surpresa, percebeu que a mulher não respirava.

Estava tonto e demorou a entender o que acontecia. Achava a principio que ela havia dormido, bêbada, mas depois de sacudi-la e até bater-lhe a cara, percebeu que estava morta.

Quis entender o que estava acontecendo, mas era prático demais. Não se desesperou. Tentou um respiração boca a boca, uma massagem cardíaca, mas não tinha habilidade nem sucesso. E, principalmente, não tinha apego a ela. Não tinha apego a nada. Era lamentável que morrido. Ainda mais assim, antes de uma trepada que parecia ser sensacional. Mas, pensou, as pessoas morrem, que merda. Pensou em ligar para a policia, mas de cara veio a visão de todo o constrangimento e embaraço que seria aquela situação. Ao mesmo tempo, tentou fixar na memória tudo aquilo que eles havia feito, comido, bebido, falado. Sabia que seria questionado. Só não queria ser questionado agora. Respirou e voltou a olhar o corpo dela sobre a mesa de vidro. Morto era ainda mais lindo. Lamentou, pois viu que desejava muito ter intimidade com aquela mulher. Mas não tinha apego. E aquele corpo não tinha sorriso. Estava, a seu jeito, em choque.

Fumou um cigarro na varanda dela. Era noite. Fazia frio. Decidiu ir pra casa. E lá, segurando o copo d’água gelado, pela primeira vez, respirou.

Que merda, pensou. Esperou dar oito da manhã. Antes era muito cedo para ligar para qualquer pessoa, mesmo um amigo, mesmo em caso de morte. As oito ligou para o amigo, aquele que não gostava de mulher e que era delegado. Enquanto explicava calmamente o caso, pensava que era bom ter amigos.